Eu
já devia ter começado a escrever sobre a experiência do estágio docência há
mais tempo... Mas, acreditando que nunca é tarde demais para começar, me
empenho desde já nessa tarefa de registrar minhas impressões sobre essa
disciplina, a tal da “Ética profissional e da empresa”. O fato é que hoje
tivemos aula de responsabilidade social da empresa, e essa aula em especial
mexeu um bocado comigo (o que não é muito difícil). Nunca acreditei muito nessa
conversa de empresa responsável, e hoje tive certeza de que não é possível (por
mais que a professora da disciplina tentasse me mostrar o contrário). Na minha
singela opinião de mera pesquisadora iniciante (sem muita bagagem teórica,
publicações, etc. e tal) as empresas atendem a uma lógica capitalista por natureza,
de maximização de lucro (para o/s proprietário/s). O neoliberalismo como ordem
econômica, se apresenta a essas organizações como o melhor meio de se alcançar
tal objetivo uma vez que permite um mercado auto-regulado e com pouca (ou
nenhuma) interferência de um Estado que interceda pelo bem dos cidadãos.
Abrindo parênteses, esse sistema é tão inteligente que não posso deixar de,
ironicamente, lhe dar seu mérito, como Darcy Ribeiro em relação às classes
dominantes que oprimiram a sociedade brasileira durante séculos. Ele é tão
esperto que já comprou o próprio Estado, que agora regula em seu favor!
Fechando parênteses, enfim, me pergunto como uma empresa que funciona sob essa
lógica, opressora por natureza, pode ser socialmente responsável? Ela quer
garantir “o seu” mesmo que isso custe o bem estar de outros, e isso me parece
tão óbvio (a leitura de Darcy Ribeiro foi muito recente, perdão pela constante
referência)!
O
argumento que a professora da disciplina usou a favor da responsabilidade
social da empresa foi que esta consiste num contínuum, e que é sempre possível
à empresa dar um passo a frente nesse contínuum. Pra mim, as empresas estão
fadadas a manter-se sempre um passo atrás! Pra falar a verdade, não acredito
que esse conceito de contínuum seja apropriado: ou a organização é responsável
ou não é! Ou ela é justa com todos os agentes com quem estabelece relações (o
conceito de stakeholders não abrange todas as relações de poder que existem
nesse âmbito, e por isso prefiro não usá-lo), e responde pela consequência de
seus atos ou não! E não adianta fazer caridade aqui e acolá sonegar um imposto
ou outro. Isso não é responsabilidade, é hipocrisia, é querer mostrar-se bonzinho
ocultando o feio e gritando aos quatro ventos o belo!
Nessa
lógica capitalista moderna de concorrência desleal, de manipulações de
informações e de pessoas, de retenção de renda, é impossível negociar limpo. É impossível ser socialmente responsável, no sentido pleno da
palavra! E o pior, o curso de administração tenta o tempo todo justificar como
os negócios são éticos! Como os atos das empresas são justificáveis! Como a
sociedade precisa das empresas, blá blá blá!
Estou em busca de um
caso que me prove o contrário. Enquanto não encontro, me pergunto: o que fazer
em meio a esse jogo? Qual o meu papel social? Já me deixaram bem claro que não
posso mudar o mundo e fazê-lo funcionar da forma como acho mais justo (incrível
como todo mundo diz a mesma coisa!). Também já ficou bem claro pra mim (e isso
não foi ninguém que me disse, eu só observei) que as pessoas não estão
preocupadas com isso. Manter-se em sua rotina e ser remunerado sem se preocupar
em mudar as coisas que incomodam “de vez em quando” nesse mundo de meu Deus é o
suficiente para se viver bem. Mas e o que eu faço se eu não concordo com essa
irresponsabilidade empresarial, com esses discursos hipócritas, com essa
dominação do mais forte sobre os mais fracos (mais fracos estes que tem que
seguir as regras ditadas pelos mais fortes se não estão fora do jogo)? Por
enquanto só consegui chegar à simples conclusão que o que me resta é agir
conscientemente. Por que vou consumir produtos de grandes empresas se não
concordo com a lógica na qual elas se inserem e a partir da qual funcionam? Não
quero levar adiante esse sistema e, de alguma forma, me sinto responsável pelas
consequências disso uma vez que faço parte dele enquanto consumidora. Esse é o
sentido da responsabilidade social. Eu sou responsável, as empresas não.
Nenhum comentário:
Postar um comentário