quarta-feira, 4 de julho de 2012

Ética X Responsabilidade Social Empresarial


Eu já devia ter começado a escrever sobre a experiência do estágio docência há mais tempo... Mas, acreditando que nunca é tarde demais para começar, me empenho desde já nessa tarefa de registrar minhas impressões sobre essa disciplina, a tal da “Ética profissional e da empresa”. O fato é que hoje tivemos aula de responsabilidade social da empresa, e essa aula em especial mexeu um bocado comigo (o que não é muito difícil). Nunca acreditei muito nessa conversa de empresa responsável, e hoje tive certeza de que não é possível (por mais que a professora da disciplina tentasse me mostrar o contrário). Na minha singela opinião de mera pesquisadora iniciante (sem muita bagagem teórica, publicações, etc. e tal) as empresas atendem a uma lógica capitalista por natureza, de maximização de lucro (para o/s proprietário/s). O neoliberalismo como ordem econômica, se apresenta a essas organizações como o melhor meio de se alcançar tal objetivo uma vez que permite um mercado auto-regulado e com pouca (ou nenhuma) interferência de um Estado que interceda pelo bem dos cidadãos. Abrindo parênteses, esse sistema é tão inteligente que não posso deixar de, ironicamente, lhe dar seu mérito, como Darcy Ribeiro em relação às classes dominantes que oprimiram a sociedade brasileira durante séculos. Ele é tão esperto que já comprou o próprio Estado, que agora regula em seu favor! Fechando parênteses, enfim, me pergunto como uma empresa que funciona sob essa lógica, opressora por natureza, pode ser socialmente responsável? Ela quer garantir “o seu” mesmo que isso custe o bem estar de outros, e isso me parece tão óbvio (a leitura de Darcy Ribeiro foi muito recente, perdão pela constante referência)! 
O argumento que a professora da disciplina usou a favor da responsabilidade social da empresa foi que esta consiste num contínuum, e que é sempre possível à empresa dar um passo a frente nesse contínuum. Pra mim, as empresas estão fadadas a manter-se sempre um passo atrás! Pra falar a verdade, não acredito que esse conceito de contínuum seja apropriado: ou a organização é responsável ou não é! Ou ela é justa com todos os agentes com quem estabelece relações (o conceito de stakeholders não abrange todas as relações de poder que existem nesse âmbito, e por isso prefiro não usá-lo), e responde pela consequência de seus atos ou não! E não adianta fazer caridade aqui e acolá sonegar um imposto ou outro. Isso não é responsabilidade, é hipocrisia, é querer mostrar-se bonzinho ocultando o feio e gritando aos quatro ventos o belo!
Nessa lógica capitalista moderna de concorrência desleal, de manipulações de informações e de pessoas, de retenção de renda, é impossível negociar limpo. É impossível ser socialmente responsável, no sentido pleno da palavra! E o pior, o curso de administração tenta o tempo todo justificar como os negócios são éticos! Como os atos das empresas são justificáveis! Como a sociedade precisa das empresas, blá blá blá!
Estou em busca de um caso que me prove o contrário. Enquanto não encontro, me pergunto: o que fazer em meio a esse jogo? Qual o meu papel social? Já me deixaram bem claro que não posso mudar o mundo e fazê-lo funcionar da forma como acho mais justo (incrível como todo mundo diz a mesma coisa!). Também já ficou bem claro pra mim (e isso não foi ninguém que me disse, eu só observei) que as pessoas não estão preocupadas com isso. Manter-se em sua rotina e ser remunerado sem se preocupar em mudar as coisas que incomodam “de vez em quando” nesse mundo de meu Deus é o suficiente para se viver bem. Mas e o que eu faço se eu não concordo com essa irresponsabilidade empresarial, com esses discursos hipócritas, com essa dominação do mais forte sobre os mais fracos (mais fracos estes que tem que seguir as regras ditadas pelos mais fortes se não estão fora do jogo)? Por enquanto só consegui chegar à simples conclusão que o que me resta é agir conscientemente. Por que vou consumir produtos de grandes empresas se não concordo com a lógica na qual elas se inserem e a partir da qual funcionam? Não quero levar adiante esse sistema e, de alguma forma, me sinto responsável pelas consequências disso uma vez que faço parte dele enquanto consumidora. Esse é o sentido da responsabilidade social. Eu sou responsável, as empresas não.

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