Tenho lido e escrito um
pouco sobre a noção de práticas, e muita gente me pergunta o que é isso, e por
que tenho perdido meu tempo lendo sobre (coisa que, às vezes, até eu me
pergunto, rs). Nesse texto, falo um pouquinho sobre
prática numa linguagem não acadêmica, fazendo também um apelo às pessoas que
atuam na minha área de formação, a educação em administração. Nesse apelo, o
texto fica um pouquinho mais acadêmico, para falar de um problema presente no
espaço da academia, mas não desistam de mim 😊
Para falar sobre o que
são as práticas, começo com uma pergunta: O que você está fazendo nesse
momento? Possivelmente você vai dizer que está lendo esse texto
despretensiosamente, neh? Pois bem, para ler esse texto, você mobiliza
conhecimentos sobre a língua portuguesa, construídos por anos, e ainda em
construção (vide o novo acordo ortográfico e as variações linguísticas), certo?
Mas esse conhecimento todo não bastaria se você não tivesse certa “habilidade
leiturística” (perdoem os invencionismos, rs), proveniente de anos e anos
exercendo esse hábito de leitura, correto? De tanto fazer a mesma coisa, ler já
faz parte do seu cotidiano, e já é um ato quase involuntário do seu corpo:
quando você vê umas letrinhas juntas, seu corpo para por milésimos de segundos
para que seus olhinhos pousem nelas, seu cérebro faça milhões de conexões
rápidas e invisíveis, e talvez você balbucie a(s) palavra(s) formadas, para que
seus ouvidos captem o seu som...
Deixa eu te dizer que a
leitura é uma prática, que você está inserido nela, e em muuuuitas outras todos
os dias da tua vida <3 Deixa eu te dizer também que essa prática da leitura
não é a mesma pra todo mundo. Ler despretensiosamente um texto nas redes
sociais é bem diferente de ler um artigo científico, que é bem diferente de ler
uma biografia de uma atriz maravilhosa. Tem gente que não tem disposição para
ler um artigo científico, e talvez até tenha dificuldade de entende-lo porque os
usos da linguagem são diferentes mesmo. Tem gente que não aguenta uma leitura
despretensiosa, e que quer fatos! Tem gente que nem gosta de ler... Daí
percebemos algo interessante sobre essa prática da leitura: as pessoas que
fazem a prática tem acessos diferentes às habilidades, conhecimentos,
entendimentos sobre a prática. E é aí que nascem umas disputas interessantes
dentro de uma prática, ou de várias.
Se eu perguntar: “O que é
mais rico? Fazer uma leitura científica, ou uma leitura fictícia?”,
possivelmente alguém dirá que fazer uma leitura científica. E essa resposta é
carregada de entendimentos que construímos coletivamente na prática da leitura
ao longo da história. E esses entendimentos estabelecem relações de poder, ou
seja, quem tem mais leitura científica, teria (em tese) mais espaço para falar e
ser ouvido em determinados espaços. Entretanto, há aqueles/as lindas/os que questionam
essas relações e burlam o sistema de vez em quando, levando leitura fictícia
para espaços em que predomina a leitura científica, por exemplo. Isso é um
exemplo de resistência dentro da prática da leitura...
Esse exemplo bobo foi só
pra te mostrar como as práticas estão no nosso dia a dia, e que é possível
tentar compreendê-las mais a fundo, pois elas são complexas. Toda prática
possui diferentes atividades, corpos-pessoas, linguagens, acontecem em
diferentes contextos sociais, legais, histórico, culturais, possuem diferentes
significados compartilhados, memórias, relações de poder, resistências... e tem
muitos/as autores/as estudando práticas no mundo todo!
Agora que está um pouco
mais claro o que é a prática, fica mais fácil te dizer que ela é uma forma de
acessar a realidade. Sempre que queremos entender qualquer coisa nessa vida,
precisamos de um ponto de partida, precisamos definir como acessar o fenômeno
que queremos entender, precisamos esclarecer que lente estamos usando, certo? Essa
lente é o que chamamos de epistemologia. Então, se quero entender como acontece
a um coletivo se organiza para realizar projetos, posso escolher acessar essa
realidade por meio de fórmulas que me ajudem a ver relações de causa e efeito
(grande quantidade de pessoas no coletivo pode levar o projeto à falência, por
exemplo); posso escolher um ponto de partida mais crítico, que me ajude a ver o
quanto certas estruturas sociais impactam na ação das pessoas do grupo (como o pensamento
capitalista interfere na organização dos projetos, por exemplo); posso escolher
olhar a formação histórica desse coletivo para entender como os projetos são
organizados; ou posso escolher a lente das práticas, que me permite entender o
que as pessoas fazem coletivamente, por que elas fazem como fazem, quais as
forças que as movem em determinados sentidos, quais as relações de poder criadas,
como elas são mantidas, e quais as resistências possíveis (spoiler alert: a
lente das práticas conversa com as últimas duas lentes exemplificadas, a
crítica e a histórica).
Portanto, se eu quero
entender como acontece o trabalho de um coletivo, posso usar a lente das
práticas, assim como posso utilizá-la se quero entender como é a aprendizagem
dentro de uma organização, como são as relações de poder entre homens e
mulheres numa empresa etc. Ter a prática como ponto de partida nos ajuda a entender
melhor o que acontece no dia a dia de um grupo de pessoas, e teorizar melhor
sobre isso, depois de muito estudo, claro.
No meu campo de formação,
a administração, aqui no Brasil/Nordeste/Agreste, ainda temos muito o que
aprender sobre isso. Estamos engatinhando na tarefa de teorizar sobre a
realidade. Ainda nos prendemos a teorias criadas para explicar práticas que não
são nossas, e que por isso, não nos ajudam a entender muitas coisas.
Aprendemos, por exemplo, que existem X passos para fazer uma gestão eficaz; que
existem N parâmetros organizacionais a serem usados na elaboração de Y tipos de
estruturas organizacionais diferentes; que todo gestor desenvolve Q funções
básicas... Só que nossa realidade é tão mais rica que extrapola as teorias
feitas em outros tempos e em outros contextos.
Disso, deriva um problema do qual todo mundo que passou
pelo curso de administração já ouviu falar: que a teoria é distante da prática.
Eu complemento: A teoria só é distante da prática quando a pesquisa (necessária
à construção da teoria) não considera as práticas situadas. E muitas das
pesquisas que o campo da administração vem produzindo, de fato, estão mais
preocupadas em fazer as práticas se encaixarem em teorias ultrapassadas, que
não lhe servem, do que preocupadas em entender melhor as práticas que compõem a
nossa realidade.
Isso não significa que
não seja importante compreender as teorias já produzidas mundo a fora. É
importante fazer isso, tá? E tão importante quanto isso, é entender até onde
essas teorias nos ajudam a entender nossa realidade, e quando elas não ajudam
mais. E só podemos construir essa compreensão entendendo como as práticas que
queremos estudar acontecem. Fica então o apelo, em linguagem não acadêmica,
porque muitos textos acadêmicos já foram produzidos sobre isso: Professores/as,
pesquisadores/as, estudantes, profissionais de administração, não se contentem
com o que a maioria das teorias da administração nos oferecem! Teoria e prática
só estão distantes porque nós não os aproximamos, e esse diálogo só surge a
partir de um pensamento científico engajado com a realidade e capaz de dialogar
com conhecimentos diversos.
É o pensamento científico
que nos permite questionar a realidade, e questionar é o primeiro passo para
entender melhor e conhecer qualquer coisa nessa vida. O pensamento científico
pode ser engajado a partir do momento que se envolve (de forma sempre crítica) com
as tensões da realidade estudada; e dialoga com outros conhecimentos quando sai
do pedestal em que geralmente o colocam, e se preocupa em encontrar pontes ou
pontos de diálogo para a solução de problemas vividos.
Tentar encaixar uma
teoria na prática não é exercer pensamento científico, pois ele vai muito além
disso, e dá muito mais trabalho! Exercer esse pensamento científico engajado e que
dialoga com vários saberes é entender a realidade, perceber problemas, ajudar
na construção de soluções... é se envolver, é entender o cotidiano vivido, é
virar pesquisado em certos momentos, e não operar com base no dualismo
sujeito/objeto. E, a partir disso, teorizar!
Importante frisar que não
há um passo a passo do sucesso para exercer esse pensamento científico engajado
e aberto ao diferente. Entender como a prática acontece, entretanto, precisa
ser um passo. E isso pode acontecer por meio de conversas, observações, fotos, vídeos...
E esse passo pode acontecer simultaneamente a outros, como ler o que já
disseram sobre essa prática, por exemplo.
Não há um melhor caminho
para resolver esse problema entre teoria e prática. Há muitos caminhos, na
verdade. Mas creio que resolvê-lo passa, necessariamente, pelo exercício desse pensamento
científico engajado e diverso, feito de corpo e mente, no e para o mundo real. E
isso é resistência em tempos atuais, em que se demoniza o posicionamento
político na educação. Mas isso é outro papo, com a ajuda de Paulo Freire <3