segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Prática, administração e pensamento científico


Tenho lido e escrito um pouco sobre a noção de práticas, e muita gente me pergunta o que é isso, e por que tenho perdido meu tempo lendo sobre (coisa que, às vezes, até eu me pergunto, rs). Nesse texto, falo um pouquinho sobre prática numa linguagem não acadêmica, fazendo também um apelo às pessoas que atuam na minha área de formação, a educação em administração. Nesse apelo, o texto fica um pouquinho mais acadêmico, para falar de um problema presente no espaço da academia, mas não desistam de mim 😊

Para falar sobre o que são as práticas, começo com uma pergunta: O que você está fazendo nesse momento? Possivelmente você vai dizer que está lendo esse texto despretensiosamente, neh? Pois bem, para ler esse texto, você mobiliza conhecimentos sobre a língua portuguesa, construídos por anos, e ainda em construção (vide o novo acordo ortográfico e as variações linguísticas), certo? Mas esse conhecimento todo não bastaria se você não tivesse certa “habilidade leiturística” (perdoem os invencionismos, rs), proveniente de anos e anos exercendo esse hábito de leitura, correto? De tanto fazer a mesma coisa, ler já faz parte do seu cotidiano, e já é um ato quase involuntário do seu corpo: quando você vê umas letrinhas juntas, seu corpo para por milésimos de segundos para que seus olhinhos pousem nelas, seu cérebro faça milhões de conexões rápidas e invisíveis, e talvez você balbucie a(s) palavra(s) formadas, para que seus ouvidos captem o seu som...

Deixa eu te dizer que a leitura é uma prática, que você está inserido nela, e em muuuuitas outras todos os dias da tua vida <3 Deixa eu te dizer também que essa prática da leitura não é a mesma pra todo mundo. Ler despretensiosamente um texto nas redes sociais é bem diferente de ler um artigo científico, que é bem diferente de ler uma biografia de uma atriz maravilhosa. Tem gente que não tem disposição para ler um artigo científico, e talvez até tenha dificuldade de entende-lo porque os usos da linguagem são diferentes mesmo. Tem gente que não aguenta uma leitura despretensiosa, e que quer fatos! Tem gente que nem gosta de ler... Daí percebemos algo interessante sobre essa prática da leitura: as pessoas que fazem a prática tem acessos diferentes às habilidades, conhecimentos, entendimentos sobre a prática. E é aí que nascem umas disputas interessantes dentro de uma prática, ou de várias.

Se eu perguntar: “O que é mais rico? Fazer uma leitura científica, ou uma leitura fictícia?”, possivelmente alguém dirá que fazer uma leitura científica. E essa resposta é carregada de entendimentos que construímos coletivamente na prática da leitura ao longo da história. E esses entendimentos estabelecem relações de poder, ou seja, quem tem mais leitura científica, teria (em tese) mais espaço para falar e ser ouvido em determinados espaços. Entretanto, há aqueles/as lindas/os que questionam essas relações e burlam o sistema de vez em quando, levando leitura fictícia para espaços em que predomina a leitura científica, por exemplo. Isso é um exemplo de resistência dentro da prática da leitura...

Esse exemplo bobo foi só pra te mostrar como as práticas estão no nosso dia a dia, e que é possível tentar compreendê-las mais a fundo, pois elas são complexas. Toda prática possui diferentes atividades, corpos-pessoas, linguagens, acontecem em diferentes contextos sociais, legais, histórico, culturais, possuem diferentes significados compartilhados, memórias, relações de poder, resistências... e tem muitos/as autores/as estudando práticas no mundo todo!

Agora que está um pouco mais claro o que é a prática, fica mais fácil te dizer que ela é uma forma de acessar a realidade. Sempre que queremos entender qualquer coisa nessa vida, precisamos de um ponto de partida, precisamos definir como acessar o fenômeno que queremos entender, precisamos esclarecer que lente estamos usando, certo? Essa lente é o que chamamos de epistemologia. Então, se quero entender como acontece a um coletivo se organiza para realizar projetos, posso escolher acessar essa realidade por meio de fórmulas que me ajudem a ver relações de causa e efeito (grande quantidade de pessoas no coletivo pode levar o projeto à falência, por exemplo); posso escolher um ponto de partida mais crítico, que me ajude a ver o quanto certas estruturas sociais impactam na ação das pessoas do grupo (como o pensamento capitalista interfere na organização dos projetos, por exemplo); posso escolher olhar a formação histórica desse coletivo para entender como os projetos são organizados; ou posso escolher a lente das práticas, que me permite entender o que as pessoas fazem coletivamente, por que elas fazem como fazem, quais as forças que as movem em determinados sentidos, quais as relações de poder criadas, como elas são mantidas, e quais as resistências possíveis (spoiler alert: a lente das práticas conversa com as últimas duas lentes exemplificadas, a crítica e a histórica).

Portanto, se eu quero entender como acontece o trabalho de um coletivo, posso usar a lente das práticas, assim como posso utilizá-la se quero entender como é a aprendizagem dentro de uma organização, como são as relações de poder entre homens e mulheres numa empresa etc. Ter a prática como ponto de partida nos ajuda a entender melhor o que acontece no dia a dia de um grupo de pessoas, e teorizar melhor sobre isso, depois de muito estudo, claro.

No meu campo de formação, a administração, aqui no Brasil/Nordeste/Agreste, ainda temos muito o que aprender sobre isso. Estamos engatinhando na tarefa de teorizar sobre a realidade. Ainda nos prendemos a teorias criadas para explicar práticas que não são nossas, e que por isso, não nos ajudam a entender muitas coisas. Aprendemos, por exemplo, que existem X passos para fazer uma gestão eficaz; que existem N parâmetros organizacionais a serem usados na elaboração de Y tipos de estruturas organizacionais diferentes; que todo gestor desenvolve Q funções básicas... Só que nossa realidade é tão mais rica que extrapola as teorias feitas em outros tempos e em outros contextos.

Disso, deriva um problema do qual todo mundo que passou pelo curso de administração já ouviu falar: que a teoria é distante da prática. Eu complemento: A teoria só é distante da prática quando a pesquisa (necessária à construção da teoria) não considera as práticas situadas. E muitas das pesquisas que o campo da administração vem produzindo, de fato, estão mais preocupadas em fazer as práticas se encaixarem em teorias ultrapassadas, que não lhe servem, do que preocupadas em entender melhor as práticas que compõem a nossa realidade.

Isso não significa que não seja importante compreender as teorias já produzidas mundo a fora. É importante fazer isso, tá? E tão importante quanto isso, é entender até onde essas teorias nos ajudam a entender nossa realidade, e quando elas não ajudam mais. E só podemos construir essa compreensão entendendo como as práticas que queremos estudar acontecem. Fica então o apelo, em linguagem não acadêmica, porque muitos textos acadêmicos já foram produzidos sobre isso: Professores/as, pesquisadores/as, estudantes, profissionais de administração, não se contentem com o que a maioria das teorias da administração nos oferecem! Teoria e prática só estão distantes porque nós não os aproximamos, e esse diálogo só surge a partir de um pensamento científico engajado com a realidade e capaz de dialogar com conhecimentos diversos.

É o pensamento científico que nos permite questionar a realidade, e questionar é o primeiro passo para entender melhor e conhecer qualquer coisa nessa vida. O pensamento científico pode ser engajado a partir do momento que se envolve (de forma sempre crítica) com as tensões da realidade estudada; e dialoga com outros conhecimentos quando sai do pedestal em que geralmente o colocam, e se preocupa em encontrar pontes ou pontos de diálogo para a solução de problemas vividos.

Tentar encaixar uma teoria na prática não é exercer pensamento científico, pois ele vai muito além disso, e dá muito mais trabalho! Exercer esse pensamento científico engajado e que dialoga com vários saberes é entender a realidade, perceber problemas, ajudar na construção de soluções... é se envolver, é entender o cotidiano vivido, é virar pesquisado em certos momentos, e não operar com base no dualismo sujeito/objeto. E, a partir disso, teorizar!

Importante frisar que não há um passo a passo do sucesso para exercer esse pensamento científico engajado e aberto ao diferente. Entender como a prática acontece, entretanto, precisa ser um passo. E isso pode acontecer por meio de conversas, observações, fotos, vídeos... E esse passo pode acontecer simultaneamente a outros, como ler o que já disseram sobre essa prática, por exemplo.

Não há um melhor caminho para resolver esse problema entre teoria e prática. Há muitos caminhos, na verdade. Mas creio que resolvê-lo passa, necessariamente, pelo exercício desse pensamento científico engajado e diverso, feito de corpo e mente, no e para o mundo real. E isso é resistência em tempos atuais, em que se demoniza o posicionamento político na educação. Mas isso é outro papo, com a ajuda de Paulo Freire <3

domingo, 30 de setembro de 2018

Maniac - Série da Netflix

Duas pessoas com transtornos psicológicos se encontram "por acaso" num experimento maluco e são induzidas a lidarem com situações traumáticas, medos, frustrações etc., em realidades produzidas por suas próprias mentes (com a ajuda de algumas dorgas, mas isso nem vem ao caso aqui nesse texto). Essa é uma sinopse apressada de Maniac, nova série da Netflix, que despertou em mim um desejo meio adormecido, que nunca mais tinha dado as caras: o de escrever sobre sétima arte ❤️
Fiz esse textinho aqui para organizar as minhas ideias sobre essa série inteligentíssima que roubou meu coração! Meu foco aqui nem é a reflexão genial sobre a indústria farmacêutica e suas investidas eticamente questionáveis para resolver questões psicológicas com drogas. Nem a crítica maravilhosa sobre as receitas de felicidade que a indústria de auto ajuda nos empurra todos os dias. Na verdade, essas duas reflexões, na série e na vida, giram em torno de uma que é central: as pessoas em nossa sociedade estão, cada dia mais, doentes psicologicamente.
Essa situação não surge do nada. A série faz uma crítica aos dias atuais, nos quais vivemos em bolhas individuais, nos relacionando de forma superficial com pessoas que também estão em suas respectivas bolhas. Na história, tem até empresa que oferece serviço de contratação de amigos temporários, que simulam afetos reais. Claro que não é necessariamente essa realidade individualista que leva ao adoecimento. Mas há uma relação ai, e isso é fato!
É dessa discussão sobre pessoas adoecidas que vem o que achei mais genial na série: a exposição envolvente sobre o funcionamento da nossa psique. Apesar de os personagens principais terem transtornos psicológicos muitos específicos, durante o experimento eles são colocados em situações “normais”, com as quais a gente facilmente se identifica.
Na história, nos deparamos com questões como: o fato de nos machucarmos eternamente remoendo coisas do passado, revisitando-o, nos culpando por coisas que aconteceram há anos atrás; como a gente deixa nossos “demônios internos” nos atacarem de tantas formas; como a gente reproduz comportamentos que a gente repudia (geralmente comportamentos associados aos nossos  pais); como idealizamos seres perfeitos (o doutor com o computador-mãe, Owen com o irmão imaginário...) para nos confortarem de alguma forma; como a gente se esconde atrás de disfarces muito bem elaborados, sem entender muito bem quem somos, seja para nos escondermos ou para fugirmos de nos mesmos; como a gente sempre cai nas mesmas armadilhas de formas diferentes… como a gente sempre repete os mesmos padrões!
É dessa exposição interessantíssima que a série deixa algumas dicas sobre como lidar de forma mais saudável com todas essas artimanhas da nossa mente: o autoconhecimento (até mesmo para um computador, rs) é fundamental! Isso implica compreender nossos padrões emocionais/ cognitivos/ comportamentais; entender como a gente cai em certas armadilhas e situações que nós mesmos nos colocamos; saber como nossas fantasias e idealizações podem nos atrapalhar e/ou nos ajudar; aprender a lidar com os nossos "demônios internos", seja atacando-os, seja se aliando a eles...
A menção ao “isto não é um cachimbo”, feita o tempo todo na série, também deixa sua mensagem: Muito do que julgamos real é só representação. E a gente representa o tempo todo! São muitas outras menções ao longo de toda a série: a coruja, o falcão com sua visão aguçada, o encontro espírita, a jornada dos elfos… tudo parece levar à mesma questão: a busca por autoconhecimento.
E essa jornada é um pouco mais fácil com a ajuda de amigxs que entendem as dores do outro, e se ajudam.
O texto acabou ficando melosinho porque a série tocou em questões importantes para a minha jornada, rs! Mas que bom que tropecei nessa série justamente nesse momento da minha vida! Obrigada, Netflix ❤