segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Sense 8, visibilidade trans e lésbica e empatia

Este texto nasceu de um comentário de um colega. Claro que este comentário foi “sem maldade”, que ele não teve a intenção de machucar ninguém nem de gerar um grande debate, mas quando entramos no “modo desconstrução” fica difícil não analisar criticamente tudo o que chega até nós. E acho isso ótimo, pois nos proporciona exercícios reflexivos constantes, que nos ajudam a sermos pessoas mais conscientes, a ofender cada vez menos pessoas ao nosso redor, e a incluir os amiguinhos e as amiguinhas.

Estávamos eu, esse colega e outras pessoas conversando sobre Sense 8, uma série da Netflix que gosto muito e que indico fortemente a todos e todas. Comecei a assisti-la por causa do irmão e irmã Wachowski, e somente por eles, não vou mentir. Os primeiros episódios não me prenderam tanto, pois eu não estava entendendo nada, sou bem lentinha, rs. Mas quando a minha ficha caiu, eu fiquei malucaaa!!!

A série é sobre oito pessoas (sensates) que vivem dramas diferentes em lugares diferentes do planeta, e que se conectam umas com as outras. Elas tem acesso às habilidades umas das outras, e também podem conversar entre si, mesmo estando separadas geograficamente. E essa ideia de pessoas conectadas ao redor do mundo é algo bem fascinante, não é mesmo? É algo sobre o qual a gente se pega pensando em algum momento de nossas vidas... Tipo: O que será que uma pessoa do outro planeta está fazendo neste momento em que estou escrevendo este texto? Será que nosso cérebro teria essa capacidade de se conectar com outras pessoas? Será que isso será possível um dia? Já tô tremendo aqui!

A série tem cenas lindas, com diálogos riquíssimos entre os personagens, e esta é outra coisa que me atraiu. Chorei em tantas cenas que nem sei mais. A cena em que toca Mad World (com Nomi e Lito) é uma das que mais me arrancou (e arranca) lágrimas T_T

Nessa série existe um casal composto por uma moça trans (Nomi) e uma moça lésbica (Amanita, a eterna Martha Jones de Doctor Who <3) e outro casal homossexual, composto por dois rapazes (Lito e Hernando). Durante nossa conversa, ao comentarmos sobre as cenas de sexo da série, ficou claro que meu colega não se incomodou com a cena entre Nomi e Amanita, mas sim com a de Lito e Hernando. O motivo, segundo ele: O sexo entre as duas moças seria, em tese, entre duas pessoas heterossexuais (porque a Nomi é uma mulher trans), o que é mais fácil de aceitar do que o sexo entre dois homens.

Fiquei sem reação na hora (porque sou dessas pessoas que não consegue dar uma resposta coerente na hora em que fica muito consternada com algo), mas fiquei pensando sobre isso durante muitos dias. Fiquei pensando em como é difícil desconstruir a heteronormatividade, dar visibilidade às pessoas trans e às pessoas lésbicas. Afinal, para esse meu amigo heterossexual (e para MILHARES de outras pessoas que pensam como ele), uma mulher trans sempre será, em tese, um homem que mudou de gênero. E dizer isso é negar o gênero enquanto uma construção muitas vezes dolorosa (como foi para a Nomi, e como é para tantas outras mulheres e homens); é negar a existência da Nomi enquanto mulher; é negar a orientação sexual da Amanita (que ama outra mulher, logo, não estava numa relação heterossexual, oras!).

Além disso, o próprio "incômodo" dele em relação ao casal de homens é algo que fala muito sobre seus preconceitos internalizados. Por que sentir "nojo" de uma cena de amor entre duas pessoas? E por que especificamente numa cena de amor entre duas pessoas do mesmo sexo? 

Como disse no início do texto, acho que o meu colega realmente não quis machucar ninguém, mas é por reproduzir falas assim, sem pensar, que acabamos ofendendo, machucando, marginalizando, excluindo. Mas acho que sempre há uma salvação (sou otimista)! E essa salvação está bastante associada à empatia. Ninguém nasceu pronto ou sabendo de tudo (a Clara Averbuck escreveu um texto maravilhoso sobre isso no Lugar de Mulher, dia desses). Sempre podemos evoluir, se quisermos. E dou meu exemplo, ainda falando sobre Sense 8:

Algo me incomodava no casal Lito e Hernando: O fato de Lito não assumir que era gay e namorar o Hernando às escondidas. “Que covarde”, pensava comigo. Mas aí fui conversar com outras pessoas sobre o assunto, comecei a pensar mais um pouquinho e... EUREKA! Percebi como eu estava sendo estúpida! Imagina a barra que é, para algumas pessoas, se assumir homossexual num mundo cheio de preconceito e intolerância, no qual as pessoas te julgam, te condenam, te consideram incapazes, porque você ama alguém do mesmo sexo! É só pensar um pouquinho pra perceber que não é tão simples assim. Ou melhor, é só se colocar no lugar do outro. É só ter empatia. E isso nos faz crescer um tiquinho :)

Gostaria que meu colega percebesse isso. Mas sou tímida demais pra dizer tudo isso a ele. Vai esse texto mesmo, em forma de desabafo, pra vocês que aturam ler o que escrevo =P

Bjks!



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Minhas distopias favoritas

Distopia é um gênero fascinante, dentre outros motivos, por despertar em mim reflexões sobre a sociedade em que vivemos, as relações de poder nela existentes, a ordem social vigente... Viajo! E isso não é à toa. Distopias são feitas a partir do que há de “feio” no mundo, pra nos tirar da nossa zona de conforto e nos fazer pensar mesmo. Como diz a linda da Lady Sybylla (nesse texto aqui http://www.momentumsaga.com/2014/07/o-que-e-distopia.html ), as distopias são contrárias às utopias e são para incomodar, extrapolando ao máximo problemas atuais.

Como professora, vejo as distopias como ótimas ferramentas para promover reflexão em sala de aula. Lembro que uma distopia que me marcou bastante quando eu era aluna de graduação foi A Revolução dos Bichos, do George Orwell. Não li o  livro propriamente, só assisti ao filme e li uma análise que associava o regime totalitário da história a realidades empresariais opressoras. Foi uma das portas de abertura para as pesquisas que tenho desenvolvido até hoje. Foi um grande divisor de águas na minha formação acadêmica e cidadã!

Mas quais as suas distopias favoritas, Elisabeth? Elenquei 5. A primeira é a primeira distopia que eu li na vida (há muuuuito tempo atrás, na época de escola), chamada Admirável Mundo Novo. Sim, foi por causa da Pitty, rs. E foi ao som de Admirável Chip Novo que comecei a gostar tanto desse estilo literário maravilindo.
O livro apresenta uma sociedade moldada unicamente por valores científicos-modernos, na qual os impulsos, desejos, crenças, ou qualquer outra manifestação da natureza humana/selvagem são erradicados. Nessa sociedade, John, nascido de um caso amoroso (o que vai totalmente de encontro às regras dessa sociedade), personifica o conflito entre o “primitivo” e o “moderno”.  A história é uma crítica fantástica à racionalização e à consequente automatização do ser humano. E também às regras sociais que excluem aquilo e aqueles/as que não “se encaixam”.
Essa história mexeu tanto com minha cabeça – adolescente, na época - que terminei o livro chorando horrores, pra variar. Lembro que, na época, bateu um medo de toda essa glória que o ser humano enxerga na ciência e na racionalização da vida, e da possibilidade disso desembocar na perda de sentimentos que nos fazem verdadeiramente humanos. Fiquei apavorada, rs. Mais tarde, já na faculdade, descobri o Max Weber e sua crítica à racionalização instrumental e utilitária. Acho que essa distopia diz muito sobre minhas escolhas em termos de pesquisas acadêmicas (e essa ficha só caiu agora, escrevendo esse texto ^^)
A distopia que mais me incomodou foi Ensaio sobre a Cegueira, sem sombra de dúvida. E este incômodo me impediu de seguir até o final do filme e de ler o livro. Sei o que acontece no fim da história porque procurei saber posteriormente, através de textos e tal, mas não consegui terminar de assistir pelo simples fato de que fiquei atordoada, me sentindo mal mesmo.
 A condição selvagem à qual o ser humano é exposto devido à falta de UM ÚNICO SENTIDO foi um soco no meu estômago, fazendo com que eu me atentasse para nossa fragilidade, nossa pequenez. Tudo aquilo que construímos enquanto seres sociais e que achamos que é essencial – como o casamento, por exemplo – fica em segundo plano quando nos vemos diante da exigência de saciar nossas necessidades básicas de fome, sede, sexo... Somos meros animais, no fim das contas. Isso vai bem ao encontro do que diz o Thomas Hobbes, de que o homem é o lobo do homem. E isso me inquieta porque é daquelas verdades que eu preferiria que fosse mentira. Queria que o Rousseau (que diz que o homem é bom, a sociedade o corrompe) ganhasse essa aposta =P
Assisti V de Vingança há 10 anos (MEU DEUS, QUANTO TEMPO!). Mas só li os quadrinhos há dois meses. Ele está na minha lista de distopias favoritas por vários motivos. Um desses motivos é o personagem principal, V (dãããã). V não é uma pessoa, na verdade. Ele/ Ela é uma idéia. Uma idéia libertária. E essa, pra mim, foi a sacada mais genial que um escritor poderia ter tido (na edição de 2012 da Panini Brasil, que tem todas as histórias reunidas, o Alan Moore conta as várias inspirações dele pra criação do/a personagem. Vale a pena dar uma conferida.).
V foge dos clichês comuns de super heróis, começando pelo fato de não ser homem ou mulher, o que já quebra um baita paradigma, e por ter um objetivo muito particular (principalmente em função do contexto distópico), que é vingar aquelas pessoas que são oprimidas, que tem sua liberdade e cidadania negadas, pelo simples fato de serem elas mesmas numa sociedade que dita regras excludentes e absurdas.
Esse contexto distópico em que V se insere é, à propósito, tão real, que às vezes me pergunto onde está a ficção na história. “Uma guerra” que utilizou pessoas que não se “encaixavam” nas normas sociais (mendigos, homossexuais...) como cobaias para os experimentos mais cruéis; uma sociedade em que crianças órfãs são submetidas ao trabalho escravo e à prostituição; em que jogos políticos determinam quem tem o poder de legislar sobre a vida de todos; em que as pessoas seguem um script... Seria mera coincidência? Eu acho que não!
Como não falar de Matrix, não é mesmo? A melhor distopia da 7ª arte do planeta! Com a melhor trilha sonora de distopias do universo! Com o casal hétero mais shippado da galáxia! Hahahaha! Amo muito esse filme. Mas só o primeiro mesmo. Acho que os irmãos sense8 perderam a mão nos outros dois. Mas é só uma impressão minha. O filme traz uma discussão filosófica maravilhosa, sobre estarmos vivendo o real ou não. Penso muito em Nietzsche quando começo a viajar nesse filme, quando ele fala sobre vivermos ilusões....
E mais uma vez caímos numa discussão sobre a evolução da ciência – que nesse caso, poderia levar a uma revolução das máquinas – não é verdade?
Afinal, o que é real? Tudo isso que criamos à nossa volta pra nos sentirmos mais “vivos” não seriam meras ilusões, meras distrações para nos manter afastados da realidade? Para que não encaremos o que, de fato, é real? Já que o que é real é doloroso e nos tiraria da nossa zona de conforto?
Mais uma vez me pego pensando em Ensaio sobre a Cegueira.... Será que, no final das contas, a realidade está associada ao que há de mais animalesco em nós? Será que os sentidos nos enganam? Como nos libertar de todas essas “enganações” a fim de “liberar nossa mente”? Esse filme suscita essas e tantas outras questões na minha cabecinha. E por isso eu o amo tanto (além de ter a Trinity, umas das minhas personagens femininas favoritas).
Outra distopia que eu AMO e quem me conhece sabe da minha PAIXÃO SEM LIMITES é Jogos Vorazes (*-----------------------*). Eu não sei nem explicar o que me fascina tanto nessa história. É meio que TUDO MESMO, rs.
Jovens que pertencem a comunidades periféricas à Capital são postos numa arena todos os anos para se matarem. Pode parecer algo distante da realidade, mas pensa ai em jovens que encaram a morte todos os dias nas periferias de todo o país. Essa realidade distópica nem é tão surreal assim, não é mesmo? Foi isso que me encantou de início, quando assisti o primeiro filme. Ai fui para os livros e, GENTE! A crítica à noção de centro X periferia é bem evidente. A ideia de como as relações de poder são muito mais complexas que a dicotomia dominante X dominado também é explorada de forma bem interessante (principalmente com a presidenta Coin). A crítica à comunicação de massa, alienante e manipuladora, também está presente na história o tempo todo. E nem vou falar sobre como a Katniss é uma personagem significativa para as discussões de gênero no universo literário pra não me alongar demais <3.
Bom, falei sobre essas 5 distopias que gosto e que mexeram bastante comigo, mas poderia recomendar muitas outras que são igualmente instigantes. The Walking Dead é um exemplo. Quase sempre choro com os episódios, nos quais os personagens vão se descobrindo e descobrindo um “admirável mundo novo” em meio ao apocalipse zumbi. Falei um pouco sobre essa série nesse texto aqui: http://elisabeth-santos.blogspot.com.br/2012/07/sobre-o-fim-dos-tempos.html . Laranja Mecânica é outra distopia que dá uma excelente reflexão sobre psicologia, behaviorismo, essas coisas. Também tem O Silo que, na verdade, é o primeiro livro de uma trilogia escrita por Hugh Howey. Não li a trilogia toda, mas gostei do primeiro (apesar de umas forçadas de barra que não me convenceram em alguns momentos), principalmente por ele trazer uma personagem feminina bem interessante como protagonista. Ainda tem Inteligência Artificial que é um dos meus filmes favoritos T_T. E 1984 está na minha estante como leitura obrigatória pós tese.
Não gosto muito de Divergente, nem do The 100 (série nova da netflix)... Mas as distopias que não gosto ficam para outro momento J
Se você conhece alguma distopia legal, indica ai!

Bjks!