segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Prática, administração e pensamento científico


Tenho lido e escrito um pouco sobre a noção de práticas, e muita gente me pergunta o que é isso, e por que tenho perdido meu tempo lendo sobre (coisa que, às vezes, até eu me pergunto, rs). Nesse texto, falo um pouquinho sobre prática numa linguagem não acadêmica, fazendo também um apelo às pessoas que atuam na minha área de formação, a educação em administração. Nesse apelo, o texto fica um pouquinho mais acadêmico, para falar de um problema presente no espaço da academia, mas não desistam de mim 😊

Para falar sobre o que são as práticas, começo com uma pergunta: O que você está fazendo nesse momento? Possivelmente você vai dizer que está lendo esse texto despretensiosamente, neh? Pois bem, para ler esse texto, você mobiliza conhecimentos sobre a língua portuguesa, construídos por anos, e ainda em construção (vide o novo acordo ortográfico e as variações linguísticas), certo? Mas esse conhecimento todo não bastaria se você não tivesse certa “habilidade leiturística” (perdoem os invencionismos, rs), proveniente de anos e anos exercendo esse hábito de leitura, correto? De tanto fazer a mesma coisa, ler já faz parte do seu cotidiano, e já é um ato quase involuntário do seu corpo: quando você vê umas letrinhas juntas, seu corpo para por milésimos de segundos para que seus olhinhos pousem nelas, seu cérebro faça milhões de conexões rápidas e invisíveis, e talvez você balbucie a(s) palavra(s) formadas, para que seus ouvidos captem o seu som...

Deixa eu te dizer que a leitura é uma prática, que você está inserido nela, e em muuuuitas outras todos os dias da tua vida <3 Deixa eu te dizer também que essa prática da leitura não é a mesma pra todo mundo. Ler despretensiosamente um texto nas redes sociais é bem diferente de ler um artigo científico, que é bem diferente de ler uma biografia de uma atriz maravilhosa. Tem gente que não tem disposição para ler um artigo científico, e talvez até tenha dificuldade de entende-lo porque os usos da linguagem são diferentes mesmo. Tem gente que não aguenta uma leitura despretensiosa, e que quer fatos! Tem gente que nem gosta de ler... Daí percebemos algo interessante sobre essa prática da leitura: as pessoas que fazem a prática tem acessos diferentes às habilidades, conhecimentos, entendimentos sobre a prática. E é aí que nascem umas disputas interessantes dentro de uma prática, ou de várias.

Se eu perguntar: “O que é mais rico? Fazer uma leitura científica, ou uma leitura fictícia?”, possivelmente alguém dirá que fazer uma leitura científica. E essa resposta é carregada de entendimentos que construímos coletivamente na prática da leitura ao longo da história. E esses entendimentos estabelecem relações de poder, ou seja, quem tem mais leitura científica, teria (em tese) mais espaço para falar e ser ouvido em determinados espaços. Entretanto, há aqueles/as lindas/os que questionam essas relações e burlam o sistema de vez em quando, levando leitura fictícia para espaços em que predomina a leitura científica, por exemplo. Isso é um exemplo de resistência dentro da prática da leitura...

Esse exemplo bobo foi só pra te mostrar como as práticas estão no nosso dia a dia, e que é possível tentar compreendê-las mais a fundo, pois elas são complexas. Toda prática possui diferentes atividades, corpos-pessoas, linguagens, acontecem em diferentes contextos sociais, legais, histórico, culturais, possuem diferentes significados compartilhados, memórias, relações de poder, resistências... e tem muitos/as autores/as estudando práticas no mundo todo!

Agora que está um pouco mais claro o que é a prática, fica mais fácil te dizer que ela é uma forma de acessar a realidade. Sempre que queremos entender qualquer coisa nessa vida, precisamos de um ponto de partida, precisamos definir como acessar o fenômeno que queremos entender, precisamos esclarecer que lente estamos usando, certo? Essa lente é o que chamamos de epistemologia. Então, se quero entender como acontece a um coletivo se organiza para realizar projetos, posso escolher acessar essa realidade por meio de fórmulas que me ajudem a ver relações de causa e efeito (grande quantidade de pessoas no coletivo pode levar o projeto à falência, por exemplo); posso escolher um ponto de partida mais crítico, que me ajude a ver o quanto certas estruturas sociais impactam na ação das pessoas do grupo (como o pensamento capitalista interfere na organização dos projetos, por exemplo); posso escolher olhar a formação histórica desse coletivo para entender como os projetos são organizados; ou posso escolher a lente das práticas, que me permite entender o que as pessoas fazem coletivamente, por que elas fazem como fazem, quais as forças que as movem em determinados sentidos, quais as relações de poder criadas, como elas são mantidas, e quais as resistências possíveis (spoiler alert: a lente das práticas conversa com as últimas duas lentes exemplificadas, a crítica e a histórica).

Portanto, se eu quero entender como acontece o trabalho de um coletivo, posso usar a lente das práticas, assim como posso utilizá-la se quero entender como é a aprendizagem dentro de uma organização, como são as relações de poder entre homens e mulheres numa empresa etc. Ter a prática como ponto de partida nos ajuda a entender melhor o que acontece no dia a dia de um grupo de pessoas, e teorizar melhor sobre isso, depois de muito estudo, claro.

No meu campo de formação, a administração, aqui no Brasil/Nordeste/Agreste, ainda temos muito o que aprender sobre isso. Estamos engatinhando na tarefa de teorizar sobre a realidade. Ainda nos prendemos a teorias criadas para explicar práticas que não são nossas, e que por isso, não nos ajudam a entender muitas coisas. Aprendemos, por exemplo, que existem X passos para fazer uma gestão eficaz; que existem N parâmetros organizacionais a serem usados na elaboração de Y tipos de estruturas organizacionais diferentes; que todo gestor desenvolve Q funções básicas... Só que nossa realidade é tão mais rica que extrapola as teorias feitas em outros tempos e em outros contextos.

Disso, deriva um problema do qual todo mundo que passou pelo curso de administração já ouviu falar: que a teoria é distante da prática. Eu complemento: A teoria só é distante da prática quando a pesquisa (necessária à construção da teoria) não considera as práticas situadas. E muitas das pesquisas que o campo da administração vem produzindo, de fato, estão mais preocupadas em fazer as práticas se encaixarem em teorias ultrapassadas, que não lhe servem, do que preocupadas em entender melhor as práticas que compõem a nossa realidade.

Isso não significa que não seja importante compreender as teorias já produzidas mundo a fora. É importante fazer isso, tá? E tão importante quanto isso, é entender até onde essas teorias nos ajudam a entender nossa realidade, e quando elas não ajudam mais. E só podemos construir essa compreensão entendendo como as práticas que queremos estudar acontecem. Fica então o apelo, em linguagem não acadêmica, porque muitos textos acadêmicos já foram produzidos sobre isso: Professores/as, pesquisadores/as, estudantes, profissionais de administração, não se contentem com o que a maioria das teorias da administração nos oferecem! Teoria e prática só estão distantes porque nós não os aproximamos, e esse diálogo só surge a partir de um pensamento científico engajado com a realidade e capaz de dialogar com conhecimentos diversos.

É o pensamento científico que nos permite questionar a realidade, e questionar é o primeiro passo para entender melhor e conhecer qualquer coisa nessa vida. O pensamento científico pode ser engajado a partir do momento que se envolve (de forma sempre crítica) com as tensões da realidade estudada; e dialoga com outros conhecimentos quando sai do pedestal em que geralmente o colocam, e se preocupa em encontrar pontes ou pontos de diálogo para a solução de problemas vividos.

Tentar encaixar uma teoria na prática não é exercer pensamento científico, pois ele vai muito além disso, e dá muito mais trabalho! Exercer esse pensamento científico engajado e que dialoga com vários saberes é entender a realidade, perceber problemas, ajudar na construção de soluções... é se envolver, é entender o cotidiano vivido, é virar pesquisado em certos momentos, e não operar com base no dualismo sujeito/objeto. E, a partir disso, teorizar!

Importante frisar que não há um passo a passo do sucesso para exercer esse pensamento científico engajado e aberto ao diferente. Entender como a prática acontece, entretanto, precisa ser um passo. E isso pode acontecer por meio de conversas, observações, fotos, vídeos... E esse passo pode acontecer simultaneamente a outros, como ler o que já disseram sobre essa prática, por exemplo.

Não há um melhor caminho para resolver esse problema entre teoria e prática. Há muitos caminhos, na verdade. Mas creio que resolvê-lo passa, necessariamente, pelo exercício desse pensamento científico engajado e diverso, feito de corpo e mente, no e para o mundo real. E isso é resistência em tempos atuais, em que se demoniza o posicionamento político na educação. Mas isso é outro papo, com a ajuda de Paulo Freire <3

domingo, 30 de setembro de 2018

Maniac - Série da Netflix

Duas pessoas com transtornos psicológicos se encontram "por acaso" num experimento maluco e são induzidas a lidarem com situações traumáticas, medos, frustrações etc., em realidades produzidas por suas próprias mentes (com a ajuda de algumas dorgas, mas isso nem vem ao caso aqui nesse texto). Essa é uma sinopse apressada de Maniac, nova série da Netflix, que despertou em mim um desejo meio adormecido, que nunca mais tinha dado as caras: o de escrever sobre sétima arte ❤️
Fiz esse textinho aqui para organizar as minhas ideias sobre essa série inteligentíssima que roubou meu coração! Meu foco aqui nem é a reflexão genial sobre a indústria farmacêutica e suas investidas eticamente questionáveis para resolver questões psicológicas com drogas. Nem a crítica maravilhosa sobre as receitas de felicidade que a indústria de auto ajuda nos empurra todos os dias. Na verdade, essas duas reflexões, na série e na vida, giram em torno de uma que é central: as pessoas em nossa sociedade estão, cada dia mais, doentes psicologicamente.
Essa situação não surge do nada. A série faz uma crítica aos dias atuais, nos quais vivemos em bolhas individuais, nos relacionando de forma superficial com pessoas que também estão em suas respectivas bolhas. Na história, tem até empresa que oferece serviço de contratação de amigos temporários, que simulam afetos reais. Claro que não é necessariamente essa realidade individualista que leva ao adoecimento. Mas há uma relação ai, e isso é fato!
É dessa discussão sobre pessoas adoecidas que vem o que achei mais genial na série: a exposição envolvente sobre o funcionamento da nossa psique. Apesar de os personagens principais terem transtornos psicológicos muitos específicos, durante o experimento eles são colocados em situações “normais”, com as quais a gente facilmente se identifica.
Na história, nos deparamos com questões como: o fato de nos machucarmos eternamente remoendo coisas do passado, revisitando-o, nos culpando por coisas que aconteceram há anos atrás; como a gente deixa nossos “demônios internos” nos atacarem de tantas formas; como a gente reproduz comportamentos que a gente repudia (geralmente comportamentos associados aos nossos  pais); como idealizamos seres perfeitos (o doutor com o computador-mãe, Owen com o irmão imaginário...) para nos confortarem de alguma forma; como a gente se esconde atrás de disfarces muito bem elaborados, sem entender muito bem quem somos, seja para nos escondermos ou para fugirmos de nos mesmos; como a gente sempre cai nas mesmas armadilhas de formas diferentes… como a gente sempre repete os mesmos padrões!
É dessa exposição interessantíssima que a série deixa algumas dicas sobre como lidar de forma mais saudável com todas essas artimanhas da nossa mente: o autoconhecimento (até mesmo para um computador, rs) é fundamental! Isso implica compreender nossos padrões emocionais/ cognitivos/ comportamentais; entender como a gente cai em certas armadilhas e situações que nós mesmos nos colocamos; saber como nossas fantasias e idealizações podem nos atrapalhar e/ou nos ajudar; aprender a lidar com os nossos "demônios internos", seja atacando-os, seja se aliando a eles...
A menção ao “isto não é um cachimbo”, feita o tempo todo na série, também deixa sua mensagem: Muito do que julgamos real é só representação. E a gente representa o tempo todo! São muitas outras menções ao longo de toda a série: a coruja, o falcão com sua visão aguçada, o encontro espírita, a jornada dos elfos… tudo parece levar à mesma questão: a busca por autoconhecimento.
E essa jornada é um pouco mais fácil com a ajuda de amigxs que entendem as dores do outro, e se ajudam.
O texto acabou ficando melosinho porque a série tocou em questões importantes para a minha jornada, rs! Mas que bom que tropecei nessa série justamente nesse momento da minha vida! Obrigada, Netflix ❤

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ideias malucas (Ou "Sobre escrever uma tese de doutorado")

Sabe aquelas ideias fixas, que aperreiam nosso juízo, e que só sossegam quando concretizamos, experimentamos, vemos acontecer?  O que são as palavras, os textos, os livros, as teses, se não a expressão dessas ideias malucas que um dia importunaram a mente de alguém?

Praticamente toda produção textual [significativa, porque verdadeira] um dia foi ideia, invisível, quase indizível. Toda boa ideia maluca um dia fez cócegas intelectuais em alguém, daquelas que, do nada, nos faz sorrir com o canto da boca, que franze nossa testa, que cerra nossos olhos, na tentativa de enxergar o que não está ali, ou que talvez até esteja, ou possivelmente estará. Uma ideia dessas mexe com o nosso corpo inteiro, e nos enche de um desejo quase obsessivo por algo que ainda não se concretizou, que parece inviável, mas que pode vir a ser.

Essas ideias nos deixam ansiosos (as), “dão” borboletas no estômago, geram nervosismo, indecisão, medo. Medo de não se fazer entender, de não conseguir se livrar daquela ideia persistente que consome por dentro, e que só vai parar de fazer aquele barulho surdo quando for exposta, dissecada, e mastigada por alguém. 

Mastigada sim! Diria até devorada! Pra deixar o corpo alheio de ressaca, com marcas, transformado!

Toda ideia é meio que fuxico maldoso. Que surge do nada, quando você menos espera, e vai se alastrando, tomando corpo, mas sem tomar, porque é ideia. Vai crescendo, a ponto de precisar sair da pessoa, ser dita, ser falada, ser escrita, pois tomou uma proporção que extrapola o próprio ser pensante. Logo, praticamente toda produção textual é fruto de uma panacéia interna. Uma, ou melhor, duas – ou [com certeza] mais – reviravoltas de pensamento, que nos faz questionar o tempo todo: “mas... e se [considerarmos fator X/ fator Y/fatorZ]?”

Todo texto é um [quase] acabado [mais ou menos] bonitinho de algo que, um dia, perturbou alguém. É quase uma mágica que se faz com as palavras, para exprimir algo maior que si próprio. E é mágica porque exprime em signos, linhas, parágrafos, uma ideia e um ser [ou vários seres]. Quem escreve, está no texto, e o texto é quase um escape, pra sanar uma angústia.

Escrever é falar pro mundo, é buscar se fazer compreender, e ao mesmo tempo procurar uma explicação do porquê daquela ideia ser tão absurdamente interessante para si. É procurar uma solução, e ao mesmo tempo lançar mais perguntas.  E é chamar todo mundo que te lê pra uma dança que você mesmo conduz. 

É expor-se tão abertamente, que um(a) bom(boa) leitor(a) vê as feridas, as limitações, as incoerências, os conflitos de quem escreve. Mas nem sempre de forma clara. Às vezes nas entrelinhas. Assim, escrever é construir uma relação com quem te lê. Pobre do(a) leitor(a), que tenta dar um sentido a uma ideia de uma mente perturbada. 

Sim, porque todo(a) escritor(a) que se preze é perturbado, inquieto, aperreado. E quanto mais silêncios, mais ideias estão sendo geradas.

Bjos da escritora =*

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Na luta contra a cultura do estupro

Estes últimos dois dias não tem sido fáceis para mim, e imagino que para nenhuma outra mulher que tem acompanhado as notícias do estupro coletivo, do qual Beatriz foi vítima. Ver um caso de estupro dessa proporção é algo que desestabiliza, que machuca, que causa tristeza, dor, sofrimento, medo. E se causa em nós, imagina na pessoa que sofreu o estupro...

Ter empatia é algo que te faz chorar ao se colocar no lugar de outra pessoa numa situação dessas, e chorar é o que eu tenho me resumido a fazer nesses últimos dias. Cada notícia sobre o assunto, cada palavra, cada imagem, tem me desestabilizado de uma forma tão forte que não tenho conseguido pensar racionalmente sobre o assunto, e agradeço imensamente às migas que estão tendo forças para dar visibilidade a este caso, para que cada vez mais e mais pessoas entendam como isso é sério, e como existe uma cultura enraizada em nosso meio que sustenta esse tipo de acontecimento.

Essa cultura, não se enganem, está nos discursos “mais inofensivos”, que reproduzem a ideia de que a mulher vale pouco ou nada, que seu corpo não é exclusivamente seu, que o homem tem o direito de possui-lo (afinal, a mulher é um objeto), que o estupro "é algo inevitável, infelizmente..."

Essa cultura está na cantada (cantada é diferente de elogio!) que nós, mulheres, recebemos quase que diariamente na rua, porque o homem se acha no direito de nos tratar como meros objetos que servem unicamente para satisfação das fantasias sexuais dele; está na repreensão à roupa que a mulher usa, porque se ela usar uma roupa muito curta, o homem se acha no direito de tratá-la como ele quiser; está no julgamento feito em relação ao comportamento de uma mulher, porque se a mulher fica com vários numa noite só, se dá pra quem quer, se fica com os gringos que ela quiser, dizem que ela está sendo permissiva, que ela é puta, e que não pode reclamar quando um homem violentá-la; está na divisão “mulher pra casar” e “mulher que não presta”; está na sexualização das mulheres em filmes, revistas, séries; está no fato do homem chamar uma mulher de histérica porque ela viu uma cena de estupro desnecessária numa série e se posicionou contra aquilo (seja porque aquilo é um gatilho para ela, seja porque ela entende que aquilo, de alguma forma, naturaliza o estupro); está no fato de a opinião da mulher ser desvalorizada, afinal, para muitos homens, mulher é emotiva demais, histérica demais etc.; está no fato do homem dizer que a luta da mulher por seus direitos é vitimismo, ou na tentativa de desvalorizar o feminismo (que nada mais é que a busca por equidade entre gêneros); está no SEU silenciamento quando qualquer coisa dessas acontece, afinal, você está sendo CONIVENTE com a ideia de que mulher é objeto e pode ser tratada de qualquer forma.

Cultura do estupro vai muito além do próprio estupro. O ato do estupro é o seu limite. Lutar contra essa cultura significa repensar tudo o que é dito/ pensado/ aceito sobre a mulher. Lutar contra a cultura de estupro é, por exemplo, não aceitar quando seu coleguinha faz aquela piadinha sobre uma mulher do seu convívio, ou quando chamam a mulher de piranha, vagabunda etc., afinal, este tipo de piadinha REFORÇA a ideia de que a mullher não tem valor.

Enfim, não nos silenciemos! Obrigada às manas que tem tido força para evidenciar o absurdo que foi este caso. Obrigada por mostrarem que o estupro não acontece de forma isolada, mas que existem discursos cotidianos que o sustentam. Mas não se esqueçam que todos os dias, muitas mulheres são estupradas no nosso país, e milhares são estupradas no mundo todo! Foi necessário que uma tragédia dessas fosse cometida para que pudéssemos dar maior evidência à cultura do estupro que está no nosso dia a dia. Não nos esqueçamos do caso de Beatriz, estuprada por 30 homens, e não nos esqueçamos de todos os outros estupros que acontecem diariamente!

As feministas estão batendo nessa tecla há muito tempo, enquanto pessoas (geralmente homens) tentam desvalorizar, ridicularizar, menosprezar a luta feminista. Nos chamam de histéricas, de descompensadas, dizem que o feminismo é uma desculpa para mostrarmos os seios nas marchas... a vocês que dizem coisas como estas, é com muito pesar e convicção que informo: vocês são pessoas ignorantes, que não tem capacidade de desenvolver empatia, e que, sequer, buscam o mínimo de informação sobre o que é o feminismo. Se o fizessem, saberiam que nossa luta é contra a cultura de estupro, que culmina em casos hediondos como este. Feminismo é indispensável num mundo conservador e patriarcal como o nosso. Se informem, e não desvalorizem nossa luta!

Sigamos juntas, amigas mulheres e feministas. Amo vocês.


 E te amo, Bia. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Reflexões sobre aborto

Ultimamente tenho me visto em situações nas quais sou obrigada a discutir e tentar esclarecer meu posicionamento sobre um tema delicado e nem um pouco fácil: o aborto. Este texto é uma tentativa de apresentar alguns posicionamentos sobre o tema que te façam refletir sobre ele e perceber que, talvez, esse assunto envolva muitas questões que você estava negligenciando (não por maldade, mas por falta de oportunidade mesmo).

Primeiramente, gostaria de fazer uma pergunta bem sincera: Se você se diz “contra o aborto”, você já parou para pensar que, talvez, o posicionamento contrário a este não exista? Em outras palavras: você já parou para pensar que NÃO EXISTE ALGUÉM A FAVOR DO ABORTO?

Acho que esse é um bom ponto de partida para conversar com quem se diz tão enfaticamente contra o aborto e pró-vida. Gente, aborto é algo cruel, algo feio, algo que ninguém planeja. Ninguém diz “ah, acho que vou fazer um aborto porque me sinto bem com isso”. Logo, não precisam tentar nos chocar com imagens de fetos mortos. Isso é, no mínimo, uma estratégia infantil. TODXS SABEMOS QUE ABORTO É UM TROÇO TERRÍVEL.

Ai vocês me dizem: “Mas a feministas se dizem a favor do aborto. Elas querem matar criancinhas. Querem que todas as mulheres façam abortos, mimimi”. Gente, ninguém é a favor do aborto. Somos a favor da LEGALIZAÇÃO DO ABORTO. A legalização criaria regras voltadas para a realização do aborto seguro, ou seja, haveria acompanhamento psicológico para que a mulher decidisse se é realmente isso que ela quer, se estipularia um tempo para fazê-lo (durante as primeiras semanas de gravidez, por exemplo), o aborto seria realizado em hospitais e não em clínicas clandestinas onde as mulheres estão assustadoramente suscetíveis a morte (seja porque o material usado é inadequado, porque o lugar é sujo, ou porque o aborto é realizado por pessoas que não entendem nada do que estão fazendo).

Entendam: enquanto as pessoas se dizem “pró-vida”, mulheres estão MORRENDO ao fazerem aborto clandestino. Por mais #contraaborto vocês sejam, o aborto existe e está sendo negligenciado. Você nunca convencerá uma mulher desesperada por não ter um filho a tê-lo. Ela fará qualquer loucura para interromper aquela gestação, se ela realmente o quiser. Não adianta fugir da realidade. Quem não apóia a legalização do aborto está simplesmente dizendo “foda-se você que engravidou, mesmo que você destrua a sua vida ou a de seu filho. A culpa é sua. Foda-se”.

Inclusive, escutei dia desses que as mulheres que fazem aborto MERECEM morrer porque a culpa de ter engravidado foi delas. Primeiro: NINGUÉM MERECE MORRER, ok? O que vocês andam aprendendo na igreja pra vir com uma afirmação dessas, hein? Segundo: a culpa de engravidar não é só da mulher. Se vocês não sabem, é preciso um homem também, viu? Voltem para a aula de biologia que lá vocês vão entender direitinho.

Mas ai você pode argumentar que “se você é a favor da legalização do aborto, você está dizendo “foda-se a vida do feto”. Vamos lá: Um feto, nas primeiras semanas de gestação, não possui os órgãos formados. Não possui um cérebro formado. Não possui um sistema nervoso central. Não tem consciência. Não se comunica. Não sente dor. Não sente. Um feto é uma VIDA EM POTENCIAL. Um POTENCIAL SER HUMANO. 

Por mais que você seja “a favor” de manter essa POTENCIAL VIDA para que ela se torne uma “vida completa" (o que eu acho ótimo!), é justo você EXIGIR que todos sejam obrigados a pensar como você? E se considerarmos que nem todas as mulheres que engravidam possuem o mesmo apoio e estrutura familiar que você possui? E se considerarmos que existem mulheres que engravidam e que estão em situação de risco social sério, e que não tem a mínima condição de cuidar de uma criança? E se considerarmos que não é tão fácil assim colocar uma criança para adoção e ela ser adotada (infelizmente as pessoas ainda escolhem as crianças que querem adotar. Nem todas são adotadas. Muitas delas acabam caindo na marginalidade, sendo cuidadas por qualquer pessoa ou instituição)?

Desculpa gente, mas acho um egoísmo sem tamanho você exigir que uma mulher leve adiante uma gravidez (que é algo tão sério) indesejada sem conhecer a realidade dela. Acho um egoísmo absurdo você não lhe dar o direito de fazer um aborto seguro. E não me venham com o argumento de que “ah, mas se o aborto for legalizado, todo mundo vai abortar”. NÃO, GENTE... Procura no GOOGLE a realidade de países que já legalizaram o aborto (boa parte deles países de primeiro mundo) e vejam que o índice de mulheres que fazem o aborto caiu, principalmente em função do apoio psicológico que elas recebem.

Acho que quem leu o texto com um pouquinho de atenção entendeu que eu não tô pedindo pra ninguém abortar, neh? Rs. Assim como nenhuma feminista pede. Nossa preocupação está em garantir que mulheres não morram se expondo aos perigos de abortos clandestinos.

Tudo bem se você acha que quem faz aborto vai para o inferno. Deixa a pessoa que optou pelo aborto ir pro inferno então, miga. Não é você quem vai não. Deixa cada um fazer aquilo que acha que é certo para si mesmo, e você vai ver como é bom viver sem julgar as pessoas por suas escolhas pessoais.


Um xêro! Amo vocês :*

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sobre o filme Boi Neon

Sabe quando você assiste a um filme (ou lê um livro) e ele te desperta tantos sentimentos diferentes que você não sabe exatamente o que dizer? Bem, isso aconteceu comigo depois que assisti ao filme Boi Neon. Após assisti-lo, passei aproximadamente 12 horas digerindo tudo o que se passou pela minha cabeça, e então elaborei este texto como um verdadeiro desafio para mim, no sentido de tentar expressar minhas impressões sobre o filme de forma lógica – coisa que o filme não é e não precisa ser.
Li num comentário do Filmow a seguinte afirmação: “Cinema autoral não tem regras - introdução dos personagens, desenvolvimento, clímax, conclusão - cinema autoral é para instigar e desafiar o espectador”, e Boi Neon segue essa premissa, instigando, incomodando, fazendo rir com situações inusitadas, mas cotidianas na vida das pessoas retratadas, e nos inebriando com a simples condição do ser humano inserido no mundo da vaquejada, no agreste pernambucano.
Essa condição desse ser humano está o tempo todo associada à condição do animal – o boi e o cavalo - e é impossível não lembrar de Gilberto Freyre, no livro Nordeste, quando este autor compara a situação do escravo à situação do boi nos engenhos de açúcar de Pernambuco, séculos atrás. Para Freyre, tanto o escravo quanto o boi eram mansos, mas fortes; de passos lentos, mas firmes; capazes de suportar as situações mais adversas. Não seriam assim os vaqueiros retratados no filme, que rodam o Nordeste carregando bois para participarem das vaquejadas?
Ainda para Gilberto Freyre, o cavalo teria mais pontos em comum com seus donos, os senhores de engenho. Isso porque eles, diferentemente dos bois, não suportavam os trancos do trabalho pesado, e precisavam de cuidados especiais para servirem de montaria a seus donos, que detinham o poder sobre outros seres humanos, e que precisavam estar acima destes, como a localização da casa de engenho lhes permitia estar. Em Boi Neon, esse status do cavalo não se perdeu. Ele, quando possuidor das características solicitadas a um cavalo de raça, está entre os homens de poder da região, que compõem o mundo da vaquejada, e que detém prestígio e poder em relação aos vaqueiros.
Só essa análise a partir de Gilberto Freyre já é de tirar o fôlego, mas Boi Neon consegue ir além, e por isso achei esse filme tão inteligente. Ele consegue desconstruir estereótipos relativos a profissões e gênero, mostrando um vaqueiro que ama trabalhar com moda e sonha ser um grande estilista, outro extremamente vaidoso, uma vigilante noturna gestante, uma caminhoneira mulher e mãe. É muito legal ver personagens que saem do script, e que se mostram contraditórios e complexos, como é o ser humano, afinal.
Outro ponto positivo vai para a cena de sexo mais linda que já vi na vida, entre o vaqueiro e a vigilante grávida. Realmente me faltam palavras para descrever aquela cena e vou me limitar a dizer que ela é linda e que também desconstrói estereótipos, afinal, existe uma romantização das gestantes no imaginário das pessoas, uma vez que elas são vistas como seres reduzidos ao “amor materno”, tendo alguns desejos, como os sexuais, desconsiderados. Ver uma mulher grávida como alguém que faz sexo pode incomodar muita gente. Inclusive, ouvi boatos de que algumas pessoas saíram da sala de cinema xingando, e não me surpreende que tenha sido no decorrer dessa cena, afinal o modelo de “mulher grávida que preserva seu corpo de qualquer contato mundano por causa do filho que gera em seu ventre” é muito forte. Os carinhas atrás de mim no cinema riram durante toda a cena... o incômodo pode se manifestar de diferentes formas, não é mesmo?
Além disso, há também o fato desse filme retratar na telinha do cinema uma realidade tão próxima à minha, que vivo no agreste pernambucano, e que estou estudando sua formação social, econômica e cultural na tese de doutorado. É sempre gratificante se sentir familiarizado com a linguagem dos personagens, suas gírias, seus modos de trabalho... Acredito que sempre vale a pena prestigiar obras que retratem nossa realidade e que sejam produzidas na nossa região. É sempre uma oportunidade de aprender através de outros pontos de vista, e de incentivar pessoas que se preocupam em dar visibilidade à nossa realidade.
Corre lá pra assistir *-*

Bjks!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Humans

Finalmente arrumei uns minutinhos para escrever sobre uma série que assisti há um tempo, e que merece um texto só pra ela.
O nome da série é Humans, lançada neste ano (pelo menos em termos cinematográficos, 2015 foi um ano interessante), e que surgiu na minha vida num dos posts maravilhosos da Lady Sybylla. Como o tema é inteligência artificial, fiquei bem instigada, fui lá conferir, e acabei gostando.
A série se refere a um futuro não muito distante, no qual a mais nova sensação são os Synths, robôs de alta tecnologia, parecidos com seres humanos, que podem ser comprados para servirem como verdadeiros escravos, seja trabalhando em serviços domésticos, servindo como mão de obra em indústrias, ou até mesmo oferecendo serviços sexuais.
Joe, pai de uma família tradicional e suburbana, resolve adquirir uma Synth, a qual ele chama de Anita. Isso porque ele não dá conta de cuidar da casa e dos filhos enquanto sua esposa trabalha como advogada e passa dias fora (desde o começo tive nojo do Joe, e isso foi se confirmando com o passar dos episódios, mas não vou explorar minha impressão negativa sobre ele, se não teria que abordar muitas coisas, e ele não é o foco).
Com o passar do tempo, a Anita vai apresentando um comportamento estranho, ou melhor, um comportamento humano. Paralelo a estes acontecimentos, vamos descobrindo que Anita (que na verdade se chama Mia), tem uma história anterior à sua compra pela família de Joe. Isso porque Leo (que não se sabe o que é exatamente da Mia) a procura junto a outros robôs que também tem um comportamento humano. Aos poucos vamos descobrindo que só alguns Synths são dotados de características humanas como a capacidade de sentir dor, alegria, tristeza, raiva, amor, essas coisas todas. E que eles vivem em segredo.
A ideia de protótipos humanos, dotados de inteligência artificial, apesar de um pouco batida, me parece sempre algo atual e interessante por promover reflexões tanto sobre essas “criaturas”, quanto sobre seus criadores. Já percebeu como criar um ser desses é um ideal científico buscado desde que a ciência existe? E que com isso, a ciência nada mais quer que se equiparar a Deus? E isso é muito louco! A ciência tenta se afastar de Deus, criando suas próprias verdades, baseadas em fatos concretos e não na fé, mas quer se equiparar a ele. Isso só reforça minha opinião de que a ciência [pelo menos a tradicional] é tão dogmática quanto a religião. Vamo mudar issaê, Brasil!
Mas toda essa busca por realizar algo tão grandioso teria suas conseqüências (caso isso se realizasse, claro). E essas histórias, desde Frankenstein, são ótimos exemplos sobre tais conseqüências. Essas “criaturas” poderiam sentir um eterno vazio por não se sentirem “encaixadas” entre os humanos. Poderiam se sentir seres inferiores, afinal, o ser humano sempre se acha superior a tudo, não é mesmo? E isso poderia gerar a tão famigerada revolução das máquinas contra os humanos. Motivos para se rebelar, os robôs teriam de sobra! Acho até que eu estaria do lado dos robôs, lutando pelos “direitos humanóides”, rs.
Bom, voltando à série, os personagens que compõem o grupo de robôs que possuem “sentimentos” são bem diversificados. Cada um deles possui uma personalidade marcante, apesar de serem bastante racionais e, em certa medida, mecânicos, não sabendo lidar muito bem com suas emoções. A Niska, por exemplo, é uma rebelde COM causa, e super desconfiada com a humanidade, devido a tudo ao que já foi submetida. Max é um fofo, super otimista, e acredita na bondade humana (eles são meus personagens favoritos <3). Fred é forte e durão. Mia é cuidadosa e amorosa. Karen é solitária e desacredita na bondade de qualquer ser (seja ser humano, seja robô).
Outro ponto bastante positivo da série é a relação que os “robôs com sentimentos” constroem entre si, mas não vou falar sobre isso se não vai rolar spoiler. A atuação dos atores que fazem os robôs é outro ponto digno de respeito, em especial os personagens de Max e Odi. Odi é um dos robôs, e tem uma relação de amizade bem bonita com o seu dono, um senhor já velhinho, com a memória falha, que encheu meus olhos de lágrimas algumas vezes.
Apesar dos vários pontos positivos, a série tem alguns furos como, por exemplo, a atuação do cara que faz o Leo, que às vezes (quase sempre) não me convence. Outras questões que ficam pairando no ar são como danado a Karen conseguiu entrar para a polícia sendo um robô? O que os “robôs com sentimentos” fizeram todos os anos anteriores, desde sua criação? Para onde a Anita levou a Sofia no primeiro episódio?
Mas mesmo assim, ainda dou 4 estrelinhas para a série =D
Bjinhos e até mais!