quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sobre feminismo, trabalho, e minhas incompetências

Tem um texto rolando na internet que fala sobre a nova geração de mulheres criadas para serem independentes, para ter caixas de e-mail lotadas, para ter o próprio dinheiro pra comprar sua roupa cara, para dirigir bem, dirigir sem medo a noite (oi?) e blá blá blá (http://blogs.estadao.com.br/ruth-manus/a-incrivel-geracao-de-mulheres-que-foi-criada-para-ser-tudo-o-que-um-homem-nao-quer/). De acordo com o texto, os homens da nossa era não estariam prontos para amar essas mulheres que, para a autora, voam... ^^  Poético, não?
Mas o que acontece é que fiquei incomodadíssima com esse texto por dois motivos principais: primeiro por exaltar um perfil de mulher menosprezando outros. Vem cá: Qual o problema da mulher que cozinha, que cuida da casa, dos filhos, que costura? Por acaso isso não é um trabalho tão digno quanto o da mulher que trabalha fora? Será que essa mulher que trabalha fora e compra suas bolsas caras com seu próprio dinheiro é realmente feliz com seu trabalho, que provavelmente toma a maior parte do seu tempo, invadindo sua vida pessoal e talz?
Gente, eu não entendo de imposto de renda, não ando de salto pra lá e pra cá (por questão de conforto), não curto bolsas caras (só ando de mochila, é mais prático), não gosto de dirigir, e acho que faço parte de uma nova geração de mulheres... que tenho lá meu valor... rsrs! (Usei as características que a autora do texto usa pra ressaltar esse perfil de super mulheres).
Segundo: O texto rodou, rodou, e caiu na mesma questão de sempre: nós, mulheres, precisamos atender as expectativas de alguém. Nós precisamos de alguém para nos amar, para “pousar do nosso lado no fim do dia”, para “nos dar colo”. POR FAVOR, GENTENEY! Será que ainda não ficou claro que nós, mulheres, temos buscado maior liberdade para atender necessidades nossas, e de mais ninguém?! O que está em jogo são nossos direitos, nosso bem estar, nossa liberdade... Um relacionamento é algo que vem bem depois dessa “tomada de consciência de si”.
Além disso, acho que não dá para generalizar. A mentalidade masculina tem mudado. Novos perfis de homens também tem ganhado espaço. E não estou falando de homens “vagabundos e irresponsáveis”, que não querem ser os provedores da família, como sugeriu alguém num comentário precipitado sobre esse mesmo texto que estou comentando. Mas de caras mais sensíveis, que entendem que podem dividir responsabilidades com suas parceiras, e que não são menos homens quando cuidam dos filhos ou fazem uma faxina.
O texto tem lá seu ponto forte ao afirmar que as mulheres estão buscando cada vez mais liberdade, rejeitando submissões etc. Isso é importante, e acho que não pode ser desconsiderado. A grande questão (na minha leitura) é que ainda há muita coisa em jogo, e escrever sobre isso exige enorme cuidado, afinal, a linguagem é uma arma poderosa.
Algumas pessoas se precipitam ao dizer que dar direitos às mulheres é dar-lhes um emprego precário (precário no sentido de que rouba sua subjetividade, seu tempo, sua privacidade, etc), contanto que tenha a mesma remuneração que é dada aos homens. A discussão é bem maior, e quando compartilhamos certos discursos, estamos fortalecendo ideologias, e incitando práticas.
Bem... é isso. Não liguem para os errinhos de português, morro de preguiça de reler o texto.

Inté!