Sabe
quando você assiste a um filme (ou lê um livro) e ele te desperta tantos
sentimentos diferentes que você não sabe exatamente o que dizer? Bem, isso
aconteceu comigo depois que assisti ao filme Boi Neon. Após assisti-lo, passei
aproximadamente 12 horas digerindo tudo o que se passou pela minha cabeça, e então
elaborei este texto como um verdadeiro desafio para mim, no sentido de tentar
expressar minhas impressões sobre o filme de forma lógica – coisa que o filme
não é e não precisa ser.
Li num comentário do Filmow a seguinte afirmação: “Cinema
autoral não tem regras - introdução dos personagens, desenvolvimento, clímax,
conclusão - cinema autoral é para instigar e desafiar o espectador”, e Boi Neon
segue essa premissa, instigando, incomodando, fazendo rir com situações
inusitadas, mas cotidianas na vida das pessoas retratadas, e nos inebriando com a simples condição do ser
humano inserido no mundo da vaquejada, no agreste pernambucano.
Essa condição desse ser humano está o tempo todo associada à
condição do animal – o boi e o cavalo - e é impossível não lembrar de Gilberto
Freyre, no livro Nordeste, quando
este autor compara a situação do escravo à situação do boi nos engenhos de açúcar de
Pernambuco, séculos atrás. Para Freyre, tanto o escravo quanto o boi eram mansos,
mas fortes; de passos lentos, mas firmes; capazes de suportar as situações mais
adversas. Não seriam assim os vaqueiros retratados no filme, que rodam o
Nordeste carregando bois para participarem das vaquejadas?
Ainda para Gilberto Freyre, o cavalo teria mais pontos em
comum com seus donos, os senhores de engenho. Isso porque eles, diferentemente
dos bois, não suportavam os trancos do trabalho pesado, e precisavam de cuidados
especiais para servirem de montaria a seus donos, que detinham o poder sobre
outros seres humanos, e que precisavam estar acima destes, como a localização
da casa de engenho lhes permitia estar. Em Boi Neon, esse status do cavalo não se perdeu. Ele, quando possuidor das
características solicitadas a um cavalo de raça, está entre os homens de poder
da região, que compõem o mundo da vaquejada, e que detém prestígio e poder em
relação aos vaqueiros.
Só essa análise a partir de Gilberto Freyre já é de tirar o
fôlego, mas Boi Neon consegue ir além, e por isso achei esse filme tão inteligente.
Ele consegue desconstruir estereótipos relativos a profissões e gênero,
mostrando um vaqueiro que ama trabalhar com moda e sonha ser um grande
estilista, outro extremamente vaidoso, uma vigilante noturna gestante, uma
caminhoneira mulher e mãe. É muito legal ver personagens que saem do script, e que se mostram contraditórios
e complexos, como é o ser humano, afinal.
Outro ponto positivo vai para a cena de sexo mais linda que
já vi na vida, entre o vaqueiro e a vigilante grávida. Realmente me faltam
palavras para descrever aquela cena e vou me limitar a dizer que ela é linda e
que também desconstrói estereótipos, afinal, existe uma romantização das gestantes
no imaginário das pessoas, uma vez que elas são vistas como seres reduzidos ao “amor
materno”, tendo alguns desejos, como os sexuais, desconsiderados. Ver uma
mulher grávida como alguém que faz sexo pode incomodar muita gente. Inclusive,
ouvi boatos de que algumas pessoas saíram da sala de cinema xingando, e não me
surpreende que tenha sido no decorrer dessa cena, afinal o modelo de “mulher
grávida que preserva seu corpo de qualquer contato mundano por causa do filho
que gera em seu ventre” é muito forte. Os carinhas atrás de mim no cinema riram
durante toda a cena... o incômodo pode se manifestar de diferentes formas, não
é mesmo?
Além disso, há também o fato desse filme retratar na telinha
do cinema uma realidade tão próxima à minha, que vivo no agreste pernambucano,
e que estou estudando sua formação social, econômica e cultural na tese de
doutorado. É sempre gratificante se sentir familiarizado com a linguagem dos
personagens, suas gírias, seus modos de trabalho... Acredito que sempre vale a
pena prestigiar obras que retratem nossa realidade e que sejam produzidas na
nossa região. É sempre uma oportunidade de aprender através de outros pontos de
vista, e de incentivar pessoas que se preocupam em dar visibilidade à nossa realidade.
Corre lá pra assistir *-*
Bjks!