É
tanta coisa...
Tanta
coisa louca...
Que
a gente se esquece...
Esquece
daquele prazer ingênuo
Que
vem de ler algo simples e se emocionar
De
fazer algo inútil
Ou
de simplesmente parar e sentir
O
mundo e a si mesmo
Como se não houvesse aquela bronca pra resolver
Nem
aquelas pessoas chatas pra aturar.
Só
você e o mundo...
Li,
no blog de uma amiga, um texto delicioso que falava sobre como certas leituras
avivam em nós alguns sentimentos gostosos que já vivenciamos em algum momento
de nossas vidas. Num momento de reflexão pós-texto, me toquei que nunca mais
escrevi nada no meu blog. É que escrever (coisas não acadêmicas) é algo que me traz sentimentos
gostosos todo o tempo. E em meio a tantas obrigações a cumprir, deixei um pouco
de lado esse meu pequeno-grande prazer que é escrever textos carregados de
subjetividade.
O
texto dessa minha amiga e uma leitura fantástica que fiz há um tempo atrás do
Rubem Alves, e que recomendo fortemente (Variações sobre o prazer: Santo
Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette), acabaram me fazendo pensar que em meio a
tanta responsabilidade da vida adulta, a gente esquece um pouco de ser inútil.
Sim, inútil! Esqueça tudo o que você já ouviu e aprendeu sobre inutilidade ser
algo negativo! Estamos acostumados a uma lógica utilitarista e funcionalista,
cuja máxima é a de que só é válido aquilo que é útil. Para pra pensar... aquilo
que é considerado inútil, muitas vezes, é o que a gente mais gosta de fazer! Ficar
de boa (seja sozinho ou com outras pessoas), tomar uma, ler ficção científica,
assistir romances bobinhos ou filme-explode-tudo, etc, etc.
E
o engraçado é que a gente sempre procura uma utilidade para essas coisas, na
tentativa de funcionalizar coisas que existem para nos dar prazer. E só.
Sei
que é difícil aceitar essa ideia, neh? De que algumas coisas só servem para nos
dar prazer e que não há nada de errado em aproveitá-las. Claro! Ideologias
muito bem construidas e disseminadas (por religiões, sistemas econômicos, etc.,
etc.) nos fizeram crer, ao longo da história da humanidade, que estamos aqui para
sermos úteis a algo ou a alguém. O prazer é algo demonizado. Como diria Rubem Alves:
“A
tradição cristã tem medo do prazer. Prazer é artifício do Diabo. Tanto assim
que, para agradar a Deus, os fiéis se apressam a oferecer-lhe sofrimentos e renúncias,
certos de que é o sofrimento dos homens que lhe causa prazer. Não tenho
conhecimento de alguém que, a fim de agradar a Deus, lhe tenha feito promessas
de ouvir Mozart ou fazer amor.”
Duvido
muito que Deus, aquele fofo, adore nos ver sofrer. Além disso, o homem não é
uma máquina!
Não
estou dizendo que é errado ser útil. É essencial! Mas a inutilidade também é
importante. Vamos parar de polarizar as coisas como boas ou ruins. Como disse
uma amiga minha ontem, em conversa, as explicações estão muito mais nos tons de
cinzas do que se possa imaginar (falávamos sobre a ideia de desenvolvimento e
subdesenvolvimento, mas isso é outra história).
À
propósito, artistas considerados importantes (muitas vezes, depois de mortos)
foram considerados inúteis, ociosos e imprestáveis enquanto vivos. Afinal, não
se ocupavam das funções ditas “de prestígio”. Suas ocupações eram a arte. E foi
essa forma de pensar a arte e a cultura que a deixou a margem por tantos anos, quando,
na verdade, ela é algo inquestionavelmente atrelado ao desenvolvimento humano.
Vamos
a auto-reflexão: você constrói suas amizades em função daquilo
que é útil pra você? Você só busca relacionamentos úteis? Você só lê ou assiste
coisas que vão te fazer uma pessoa melhor, alguém mais inteligente, ou algo do
tipo? Acredito (na minha doce – e talvez romântica – visão de mundo) que
ninguém é assim. E se você é, meu amigo... você precisa experimentar a vida de
verdade J
“Prefiro as
máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia, de formiga e
musgo – elas podem um dia milagrar flores. Também as latrinas apropriadas ao
abandono me religam a Deus. Senhor, eu tenho orgulho de ser imprestável”.
(BRECHT)