“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda.”
Um amigo meu publicou essa frase no seu status do facebook ontem. Quando li, pensei que acordar exige um trabalhão (analisar a si próprio é difícil, e talvez por isso algumas pessoas prefiram pagar um analista), e que sonhar acaba sendo bem mais cômodo. Sugiro que essa frase oriente a leitura das minhas próximas reflexões.
Estava até agora a pouco lendo sobre cultura popular. Adoro estudar sobre esse assunto, e creio que não poderia ter “escolhido” um tema de pesquisa melhor. De forma bem simplificada, compreende-se por cultura popular as tradições culturais de comunidades, manifestadas em diversas linguagens (música, dança, circo, teatro, etc). São exemplos o rezado, o coco, a ciranda, os bois, o cavalo marinho, o afoxé, dentre tantos e tantos outros.
Por tanto tempo escanteada pelas políticas públicas de cultura e beeem longe dos interesses empresariais, dá para entender (mesmo que por alto, afinal isso exige uma outra discussão) porque a cultura popular geralmente é desenvolvida por quem está inserido nos grupos mais desassistidos da sociedade. Exemplos? O terreiro de candomblé existente nas periferias, a capoeira realizada pelos jovens oriundos de famílias pobres, o hip hop dos jovens dos guetos que através da música fazem o seu protesto, a ciranda de Lia de uma comunidade simples lá do Janga, etc, etc. O interessante é perceber que a identidade cultural dessas pessoas é bem mais forte que a de pessoas de “classe média” ou “classe média alta”...
A partir de 2003 houve um reposicionamento do Estado em relação à cultura popular e a formulação de programas melhor articulados com as realidades das comunidades e coletivos culturais. A cultura popular ganhou visibilidade, entretanto a grande Indústria Cultural não perdeu seu poderio, e diante dos editais públicos, a cultura popular se vê constantemente tendo que competir com manifestações culturais mais consagradas no cenário nacional (Galo Preto competindo com a Nação Zumbi, por exemplo).
A Indústria Cultural trabalha mais com a lógica de que a cultura pode ser transformada em produto com determinado valor de uso e de troca, e quando bem usada pela empresa, pode lhe garantir valor agregado. Os críticos chamam isso de “economização” da cultura, e para uma maior legitimidade dessa Indústria, alguns ramos de estudo foram recentemente desenvolvidos como o Marketing Cultural e a Economia da Cultura, por exemplo. Assim, é fácil vermos aquela figurinha que o povão gosta nos eventos patrocinados pelas instituições empresariais. Pode ter certeza: essa figurinha rende muita visibilidade aos patrocinadores naquele momento.
Por que comecei a escrever sobre isso mesmo???... Ah, porque a partir do momento que comecei a ler sobre cultura me dei conta que muitas são as manifestações culturais, de diversas ordens, competindo por recurso e visibilidade. Temos a cultura popular, a cultura de massa, a cultura erudita (nem falei muito sobre ela, mas creio que vocês tenham uma noção do que é).... Diante disso e de muitas outras questões que permeiam as discussões no campo da cultura, me pergunto: existe uma cultura melhor que a outra? É possível dizer: a boa música, o bom teatro, o bom sei lá o que?
Verdade seja dita: por trás de qualquer manifestação cultural há uma tradição, mesmo que esquecida. O hip hop, a música sertaneja, a MPB, o funk, são manifestações culturais e são ou já foram depósito de ideologias. Não se faz cultura sem acreditar em alguma coisa. A cultura é uma forma de expressão humana! Em conversa com um amigo, tentamos entender o que está por trás daqueles bregas típicos de Recife, que valorizam o corpo, a “gaia”, e essas coisas vazias (vazias para mim, e creio que para vocês também). Chegamos à conclusão que tudo o que é valorizado nessas músicas é reflexo da realidade em que vivem as pessoas que gostam dessas músicas! Coisas efêmeras, aparências, intrigas, desvalorização da mulher, do homossexual, do deficiente, etc, etc, etc. É a realidade delas! E antes de rotular a cultura delas como ruim, por que não discutir questões mais amplas que levam a esse tipo de expressão cultural como a marginalidade, o acesso à serviços precários de saúde, educação e infra-estrutura, dentre outras barbaridades às quais estas pessoas estão expostas?
Não estou dizendo que esse tipo de cultura deva ser valorizada nem desvalorizada! Mas digo que não é adequado classificar algo como bom ou ruim sem entender suas origens. Na verdade, talvez o fato não seja nem classificar como bom ou ruim (a pós modernidade repugna as dicotomias, e eu estou cada vez mais concordando com essa ideia). Talvez seja o caso de entender a quê ou a quem aquilo serve, em quê gostar ou não daquela manifestação cultural implica, quais os valores ali implícitos.
Há também uma questão de gosto ai. E quando falo de gosto, falo a partir de uma perspectiva sociológica, de inclinações construídas socialmente, pelo contato com a família, com os amigos, com diferentes estilos de vida observados nos diversos contextos pelos quais já passamos. Por isso não acho apropriado dizer que gosto da boa música, por exemplo. É muita prepotência acreditar que meu gosto é melhor que o de outra pessoa, ou que aquilo que eu gosto é bom, e o resto é ruim. Não gosto da boa música, nem da ruim. Gosto do que me acrescenta, que me faz repensar valores, sentimentos, certezas, que “quebra paradigmas”, que possui um propósito por trás do que se apresenta como óbvio! Sou capaz de listar os motivos que me fazem gostar mais de uma música do que de outra, em vez de simplesmente repetir a opinião de alguém que considero "cult". Aliás, dar uma de "cult" ultimamente é moda, né (só uma alfinetada, rs).
O fato é que não me sinto digna de valorar nenhuma manifestação cultural partindo de algo tão subjetivo como meu gosto. Não gosto do que é bom. Gosto do que aprendi a gostar por motivos diversos. Deixo essa valoração para os mais sabidos. Eu só sei que nada sei... :P