quinta-feira, 11 de junho de 2015

Demolidor: uma série bem massinha

Já faz um tempo que assisti à série Demolidor, produzida pela Netflix (que, vou te falar, tá arrebentando no quesito séries, viu?). Fiquei com vontade de escrever algo sobre a série do ponto de vista de alguém que não está inserida no universo dos quadrinhos, que não é tão fã assim de super heróis (exceto quando estou assistindo com meu sobrinho de 8 anos), e que não entende nadica de cinema (só sei sentir, rs). Na época do ~furor da série, uma moça escreveu mais ou menos algo nesse sentido, ai eu fiquei tímida. Mas uma conversa recente com um amigo me incentivou a escrever algumas linhas, só pra destacar porque gostei da série, e porque recomendo a quem, como eu, não entende muito desse universo nerd. Vou elencar alguns pontos que tornam a série bem legal de se assistir. Sintam-se a vontade para discordar:
1-      O personagem em si. O Demolidor foge do senso comum nessas histórias de super heróis começando pelo personagem, que é deficiente visual. Isso torna o personagem muito mais complexo, e sua construção bem mais desafiadora. Quantas vezes vemos super heróis deficientes nessas histórias que vão para as telinhas (alcançando um número maior de consumidores do que nos quadrinhos)? Só consigo lembrar do professor Xavier. Trazer pessoas deficientes para o centro desse tipo de história é algo bem bacana, e tem a ver com algo que tem sido muito discutido atualmente, que é a representatividade. Representar deficientes (e mulheres, e negrxs, e gays, e trans) como personagens principais, complexos, com os quais nos identificamos, é um ganho significativo para as telinhas, que na sua graaande maioria só trazem homens brancos, não deficientes e héteros para o centro das atenções. Além disso, a inclusão se torna necessária por conseqüência. Por ser uma história sobre uma pessoa cega, a Netflix disponibilizou o recurso de narração descritiva para as pessoas que são deficientes visuais acompanharem a série *-----------------* Coisa linda de se ver!
2-      O ator escolhido (vou nomeá-lo “o carinha de Stardust” porque não sei o nome dele, mas só consigo lembrar dele nesse filme). Além de ter um sorriso lindo (só perde pro sorriso do meu boy magia), ele estudou muito bem o personagem. Até acredito que ele é cego, às vezes (importante ressaltar que eu acredito em qualquer coisa, migas).
3-      O tom dark. O Demolidor é deficiente visual, seu mundo é escuro, e isso dá um tom dark à série, o que eu acho esteticamente muito atrativo! As luzes verdes e vermelhas, os ambientes escuros, tudo isso deixa a série mais bonita, o clima mais sombrio, e nos aproxima da forma de ver o mundo do Matt. I like this!
4-      Fisk. Não é de hoje que gosto mais dos vilões e vilãs. Por pouco não gosto mais do Fisk que do Matt. Os vilões e vilãs geralmente são mais humanos, sofrem vários dilemas, agem por impulso, são vida loka, carregam consigo histórias dolorosas, não são certinhos. Como não se identificar com elxs?!?! <3 É o caso do Loki. Tenho uma afeição por aquele irmão do mal que não consigo descrever! Nunca achei graça no Thor. O Loki sempre rouba as atenções com aquele temperamento maluco. Sinto até pena dele... MAS VOLTANDO, o fato é que cheguei a torcer pelo Fisk algumas vezes, não vou mentir. Mesmo sentindo muito medo dele. O cara é, de fato, o Rei do Crime. Acho que acertaram na escolha do ator (apesar de não conhecer os quadrinhos, sinto que o ator conseguiu representar bem a cabeça perturbada do Fisk).
5-      Vanessa. Sempre tento analisar as personagens femininas nas histórias de ficção. Neste caso, cheguei à conclusão que, apesar da Vanessa não ser protagonista e assumir um papel secundário, e de não explorarem a história dela (uma pena), a bicha lacra, viu? Não sei o que ela realmente sente pelo Fisk (acho que ela o ama de verdade), mas ela é uma vilã que me conquistou facinho. Ela é racional, mantém a calma quando o Fisk ta lá explodindo, e me pareceu uma ótima estrategista. Sem contar que ela é linda, culta, e tem muita “presença” (ela nem usa super jóias, super penteados, é super simples. Tô apaixonada por ela, gente!).

Meu boy, que entende do universo nerd e tal, me disse que o Demolidor ainda está aquém das suas super habilidades nessa série, comparado à sua performance nos quadrinhos. Mas eu entendo que essa primeira temporada foi só uma apresentação para a segunda, mostrando a evolução do personagem, o que dá um caráter mais real à coisa toda.

Bem, é isso. Vale a pena assistir.


Até a próxima! Bjks!

terça-feira, 9 de junho de 2015

Jesus, a transexual e a intolerância

Fui católica boa parte da minha vida, graças a meus pais. Minha infância foi marcada por váaaarias atividades relacionadas ao catolicismo, como frequentar a missa todos os domingos, rezar o terço frequentemente, participar das festividades relacionadas aos dias de vários santos, participar de grupos de liturgia, de eventos direcionados aos jovens, desenvolver trabalho voluntário em pastorais etc. Apesar de católica, sempre fui muito aberta a outras crenças, e cheguei a frequentar cultos evangélicos com meus amigos e amigas, a cantar seus hinos, e a ler a literatura espírita, da qual gosto até hoje. Na minha cabeça, todas aquelas manifestações eram para um mesmo Deus (ou Deusa), que pregava o amor acima de tudo. Esse envolvimento todo aconteceu até a adolescência, quando me afastei da cidade onde cresci, fui estudar em outros locais, e comecei a me questionar sobre o verdadeiro sentido daquilo tudo. Depois de muita reflexão, tomei certas conclusões e decisões que me afastaram definitivamente de qualquer religião, mas não é sobre essas decisões que quero discutir aqui.
Como boa católica, sempre tive contato com a história de Jesus. Mas a história dele nunca me inspirou alegria. Pelo contrário, a história de Jesus sempre me fez chorar de tristeza. Até hoje, não tenho muito estômago para assistir espetáculos como o da Paixão de Cristo, ou assistir filmes que contam a história dele. Ela me comove de uma forma que não consigo não chorar como uma criancinha, e sempre fico com um peso enorme no peito.
Pobre e negro (apesar de retratarem Jesus como branco e de olhos azuiszzzzzzzz), desde seu nascimento Jesus foi excluído pela sociedade onde vivia, não tendo direito nem a um nascimento seguro. Ele pregava o amor, a servidão, a igualdade entre as pessoas, e foi perseguido e brutalmente assassinado em função disso, por pessoas que se viam como justas, que acreditavam que podiam ter privilégios sobre as outras, pessoas que não conseguiam ver além da sua própria verdade, e que eram capazes de matar para garantir que sua verdade fosse mantida e seguida.
Ai vocês podem até dizer: Mas Elisabeth, a história dele é linda, ele morreu pelo que acreditava, ele morreu por nós, ele ressuscitou... Ok, gente. Entendo que vocês tentam ver o lado bom das coisas. Mas eu nunca consegui tirar o foco da brutalidade a qual Jesus foi submetido. Isso me choca até hoje. Mas não me choca só porque é uma história triste que aconteceu no passado, mas porque é algo que vejo TODOS OS DIAS AINDA HOJE.
Sabe aquele cara que mora na favela e que tenta sobreviver e sustentar sua família a cada dia em meio à violência, a uma sociedade que não acredita no seu potencial, que não lhe dá oportunidades, que não lhe dá o direito de viver dignamente? Ele vive um pouco do que Jesus viveu. Sabe aquele morador de rua que morreu queimado, as milhares de mulheres que foram e são assassinadas pelos respectivos companheiros ou por qualquer outro homem que se acha no direito, aquele menino gay (e tantos outros) que foi morto por sua orientação sexual, aquela pessoa transexual que foi morta por ser quem é, e tanta gente que morre um pouquinho a cada dia vítima da intolerância, do preconceito, dos “donos da moral e dos bons costumes”? Eles foram Jesus por algum momento. Eles e elas sofreram e sofrem da mesma injustiça e brutalidade que Jesus sofreu por ser pobre e por querer um mundo mais justo, mais igual.
Elxs podem não ter sido crucificados, porque abandonamos a crucificação como penalidade, mas os mecanismos são outros e diversos. São até mesmo simbólicos, sutis. As pessoas ainda se apegam tanto a uma verdade que são capazes de esquecer de valores como servidão, bondade, amor, e são cruéis, excluindo, não garantindo direitos básicos, se achando no direito de definir quem deve morrer e quem deve viver. Isso soa tão absurdo pra mim, que fico cada dia mais triste com a capacidade humana de ser cruel com o próximo.
Ai eu vejo uma moça, transexual, que usa a história de Jesus para representar o sofrimento que as pessoas transsexuais sofrem por quererem ser tratadas como iguais, por quererem simplesmente não correr o risco de serem mortas por serem quem são. Não vejo história melhor que a de Jesus para representar essa injustiça que transexuais (e negros, pobres, mulheres etc. etc.) sofrem em função do preconceito. A história de Jesus representa o amor sendo assassinado pela intolerância, e isso ficou muito claro na parada gay, com a performance que a moça fez.
Talvez tenha sido fácil para mim fazer essa interpretação, uma vez que, apesar de não ser religiosa, sempre tive contato com várias religiões, principalmente ao começar a me dedicar aos estudos culturais. Pode até ser... O fato é que as pessoas se fecharam em suas verdades absolutas, e estão criticando, desvalorizando, e se sentindo ofendidas com performance da moça na parada gay. E isso pode estar acontecendo por vários motivos, seja por intolerância religiosa, por intolerância de gênero, ou por simples falta de reflexão sobre o caso (e para o meu pesar, acho que é esta última que está acontecendo, principalmente no meu círculo de amigxs).
No sentido de tentar ajudar a quem está tendo dificuldade em refletir sobre o caso, lanço algumas questões, que talvez ajudem: Se você acha que a performance da moça numa cruz, representando Jesus Cristo, é um desrespeito, por que você acha isso desrespeitoso? É porque é uma transex? É porque aconteceu na parada gay? É porque não se pode fazer referência a Jesus em outro lugar que não seja a igreja?
Para mim, todas essas possíveis respostas acabam caindo num campo perigoso, o da intolerância e exclusão: Se o problema são as transex e o movimento gay, existe uma grande probabilidade da pessoa ser preconceituosa em relação a elxs. Se o problema é a referência a Jesus (que foi totalmente contextualizada e problematizada neste caso), quer dizer que só algumas pessoas podem fazer referência a ele (como a mídia sensacionalista em propagandas, ou com ídolos do futebol protagonizando Jesus)? Será que você não está sendo seletivo ao achar “de boa” alguns falarem de Jesus, mas achar errado que outras pessoas se sintam representadas pela história dele? Será que o problema foi a performance da moça, ou é seu preconceito?
Eu, particularmente, acredito que não houve deboche ou agressão a um símbolo religioso. Pelo contrário! O símbolo de Jesus crucificado foi usado a favor do combate a algo que fere nossa sociedade, nomeadamente, o preconceito! Ele foi usado para mostrar que, ainda hoje, muita gente sofre pelo mesmo motivo que Jesus sofreu, e que isso é ABSURDO!
Acho, inclusive, que usar esses símbolos religiosos, particularmente o símbolo de uma religião dominante historicamente, é importantíssimo! Eles dão maior representatividade à causa, levam a uma reflexão mais profunda, nos fazem questionar sobre uma série de coisas – inclusive sobre de que lado Deus está! Acho essa uma reflexão super bacana, e que agrega religiosos e não religiosos. Particularmente, tenho plena convicção que Deus está do lado das minorias, dos excluídos, e daqueles privilegiados que estão preocupados em fazer do mundo um lugar melhor.
Quem sabe Jesus reencarnou em alguém que está a margem da sociedade, e nem nos demos conta? =P
Bjinhos e muito axé! :*