Sabe aquelas ideias fixas, que aperreiam nosso juízo, e que
só sossegam quando concretizamos, experimentamos, vemos acontecer? O que são as palavras, os textos, os livros, as
teses, se não a expressão dessas ideias malucas que um dia importunaram a mente
de alguém?
Praticamente toda produção textual [significativa, porque
verdadeira] um dia foi ideia, invisível, quase indizível. Toda boa ideia maluca
um dia fez cócegas intelectuais em alguém, daquelas que, do nada, nos faz
sorrir com o canto da boca, que franze nossa testa, que cerra nossos olhos, na
tentativa de enxergar o que não está ali, ou que talvez até esteja, ou possivelmente
estará. Uma ideia dessas mexe com o nosso corpo inteiro, e nos enche de um
desejo quase obsessivo por algo que ainda não se concretizou, que parece
inviável, mas que pode vir a ser.
Essas ideias nos deixam ansiosos (as), “dão” borboletas no
estômago, geram nervosismo, indecisão, medo. Medo de não se fazer entender, de
não conseguir se livrar daquela ideia persistente que consome por dentro, e que
só vai parar de fazer aquele barulho surdo quando for exposta, dissecada, e
mastigada por alguém.
Mastigada sim! Diria até devorada! Pra deixar o corpo alheio
de ressaca, com marcas, transformado!
Toda ideia é meio que fuxico maldoso. Que surge do nada,
quando você menos espera, e vai se alastrando, tomando corpo, mas sem tomar,
porque é ideia. Vai crescendo, a ponto de precisar sair da pessoa, ser dita,
ser falada, ser escrita, pois tomou uma proporção que extrapola o próprio ser
pensante. Logo, praticamente toda produção textual é fruto de uma panacéia
interna. Uma, ou melhor, duas – ou [com certeza] mais – reviravoltas de
pensamento, que nos faz questionar o tempo todo: “mas... e se [considerarmos
fator X/ fator Y/fatorZ]?”
Todo texto é um [quase] acabado [mais ou menos] bonitinho de
algo que, um dia, perturbou alguém. É quase uma mágica que se faz com as
palavras, para exprimir algo maior que si próprio. E é mágica porque exprime em
signos, linhas, parágrafos, uma ideia e um ser [ou vários seres]. Quem escreve,
está no texto, e o texto é quase um escape, pra sanar uma angústia.
Escrever é falar pro mundo, é buscar se fazer compreender, e ao
mesmo tempo procurar uma explicação do porquê daquela ideia ser tão absurdamente
interessante para si. É procurar uma solução, e ao mesmo tempo lançar mais perguntas. E é
chamar todo mundo que te lê pra uma dança que você mesmo conduz.
É expor-se tão abertamente, que um(a) bom(boa) leitor(a) vê
as feridas, as limitações, as incoerências, os conflitos de quem escreve. Mas
nem sempre de forma clara. Às vezes nas entrelinhas. Assim, escrever é construir
uma relação com quem te lê. Pobre do(a) leitor(a), que tenta dar um sentido a
uma ideia de uma mente perturbada.
Sim, porque todo(a) escritor(a) que se preze é perturbado,
inquieto, aperreado. E quanto mais silêncios, mais ideias estão sendo geradas.
Bjos da escritora =*