quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ideias malucas (Ou "Sobre escrever uma tese de doutorado")

Sabe aquelas ideias fixas, que aperreiam nosso juízo, e que só sossegam quando concretizamos, experimentamos, vemos acontecer?  O que são as palavras, os textos, os livros, as teses, se não a expressão dessas ideias malucas que um dia importunaram a mente de alguém?

Praticamente toda produção textual [significativa, porque verdadeira] um dia foi ideia, invisível, quase indizível. Toda boa ideia maluca um dia fez cócegas intelectuais em alguém, daquelas que, do nada, nos faz sorrir com o canto da boca, que franze nossa testa, que cerra nossos olhos, na tentativa de enxergar o que não está ali, ou que talvez até esteja, ou possivelmente estará. Uma ideia dessas mexe com o nosso corpo inteiro, e nos enche de um desejo quase obsessivo por algo que ainda não se concretizou, que parece inviável, mas que pode vir a ser.

Essas ideias nos deixam ansiosos (as), “dão” borboletas no estômago, geram nervosismo, indecisão, medo. Medo de não se fazer entender, de não conseguir se livrar daquela ideia persistente que consome por dentro, e que só vai parar de fazer aquele barulho surdo quando for exposta, dissecada, e mastigada por alguém. 

Mastigada sim! Diria até devorada! Pra deixar o corpo alheio de ressaca, com marcas, transformado!

Toda ideia é meio que fuxico maldoso. Que surge do nada, quando você menos espera, e vai se alastrando, tomando corpo, mas sem tomar, porque é ideia. Vai crescendo, a ponto de precisar sair da pessoa, ser dita, ser falada, ser escrita, pois tomou uma proporção que extrapola o próprio ser pensante. Logo, praticamente toda produção textual é fruto de uma panacéia interna. Uma, ou melhor, duas – ou [com certeza] mais – reviravoltas de pensamento, que nos faz questionar o tempo todo: “mas... e se [considerarmos fator X/ fator Y/fatorZ]?”

Todo texto é um [quase] acabado [mais ou menos] bonitinho de algo que, um dia, perturbou alguém. É quase uma mágica que se faz com as palavras, para exprimir algo maior que si próprio. E é mágica porque exprime em signos, linhas, parágrafos, uma ideia e um ser [ou vários seres]. Quem escreve, está no texto, e o texto é quase um escape, pra sanar uma angústia.

Escrever é falar pro mundo, é buscar se fazer compreender, e ao mesmo tempo procurar uma explicação do porquê daquela ideia ser tão absurdamente interessante para si. É procurar uma solução, e ao mesmo tempo lançar mais perguntas.  E é chamar todo mundo que te lê pra uma dança que você mesmo conduz. 

É expor-se tão abertamente, que um(a) bom(boa) leitor(a) vê as feridas, as limitações, as incoerências, os conflitos de quem escreve. Mas nem sempre de forma clara. Às vezes nas entrelinhas. Assim, escrever é construir uma relação com quem te lê. Pobre do(a) leitor(a), que tenta dar um sentido a uma ideia de uma mente perturbada. 

Sim, porque todo(a) escritor(a) que se preze é perturbado, inquieto, aperreado. E quanto mais silêncios, mais ideias estão sendo geradas.

Bjos da escritora =*

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Na luta contra a cultura do estupro

Estes últimos dois dias não tem sido fáceis para mim, e imagino que para nenhuma outra mulher que tem acompanhado as notícias do estupro coletivo, do qual Beatriz foi vítima. Ver um caso de estupro dessa proporção é algo que desestabiliza, que machuca, que causa tristeza, dor, sofrimento, medo. E se causa em nós, imagina na pessoa que sofreu o estupro...

Ter empatia é algo que te faz chorar ao se colocar no lugar de outra pessoa numa situação dessas, e chorar é o que eu tenho me resumido a fazer nesses últimos dias. Cada notícia sobre o assunto, cada palavra, cada imagem, tem me desestabilizado de uma forma tão forte que não tenho conseguido pensar racionalmente sobre o assunto, e agradeço imensamente às migas que estão tendo forças para dar visibilidade a este caso, para que cada vez mais e mais pessoas entendam como isso é sério, e como existe uma cultura enraizada em nosso meio que sustenta esse tipo de acontecimento.

Essa cultura, não se enganem, está nos discursos “mais inofensivos”, que reproduzem a ideia de que a mulher vale pouco ou nada, que seu corpo não é exclusivamente seu, que o homem tem o direito de possui-lo (afinal, a mulher é um objeto), que o estupro "é algo inevitável, infelizmente..."

Essa cultura está na cantada (cantada é diferente de elogio!) que nós, mulheres, recebemos quase que diariamente na rua, porque o homem se acha no direito de nos tratar como meros objetos que servem unicamente para satisfação das fantasias sexuais dele; está na repreensão à roupa que a mulher usa, porque se ela usar uma roupa muito curta, o homem se acha no direito de tratá-la como ele quiser; está no julgamento feito em relação ao comportamento de uma mulher, porque se a mulher fica com vários numa noite só, se dá pra quem quer, se fica com os gringos que ela quiser, dizem que ela está sendo permissiva, que ela é puta, e que não pode reclamar quando um homem violentá-la; está na divisão “mulher pra casar” e “mulher que não presta”; está na sexualização das mulheres em filmes, revistas, séries; está no fato do homem chamar uma mulher de histérica porque ela viu uma cena de estupro desnecessária numa série e se posicionou contra aquilo (seja porque aquilo é um gatilho para ela, seja porque ela entende que aquilo, de alguma forma, naturaliza o estupro); está no fato de a opinião da mulher ser desvalorizada, afinal, para muitos homens, mulher é emotiva demais, histérica demais etc.; está no fato do homem dizer que a luta da mulher por seus direitos é vitimismo, ou na tentativa de desvalorizar o feminismo (que nada mais é que a busca por equidade entre gêneros); está no SEU silenciamento quando qualquer coisa dessas acontece, afinal, você está sendo CONIVENTE com a ideia de que mulher é objeto e pode ser tratada de qualquer forma.

Cultura do estupro vai muito além do próprio estupro. O ato do estupro é o seu limite. Lutar contra essa cultura significa repensar tudo o que é dito/ pensado/ aceito sobre a mulher. Lutar contra a cultura de estupro é, por exemplo, não aceitar quando seu coleguinha faz aquela piadinha sobre uma mulher do seu convívio, ou quando chamam a mulher de piranha, vagabunda etc., afinal, este tipo de piadinha REFORÇA a ideia de que a mullher não tem valor.

Enfim, não nos silenciemos! Obrigada às manas que tem tido força para evidenciar o absurdo que foi este caso. Obrigada por mostrarem que o estupro não acontece de forma isolada, mas que existem discursos cotidianos que o sustentam. Mas não se esqueçam que todos os dias, muitas mulheres são estupradas no nosso país, e milhares são estupradas no mundo todo! Foi necessário que uma tragédia dessas fosse cometida para que pudéssemos dar maior evidência à cultura do estupro que está no nosso dia a dia. Não nos esqueçamos do caso de Beatriz, estuprada por 30 homens, e não nos esqueçamos de todos os outros estupros que acontecem diariamente!

As feministas estão batendo nessa tecla há muito tempo, enquanto pessoas (geralmente homens) tentam desvalorizar, ridicularizar, menosprezar a luta feminista. Nos chamam de histéricas, de descompensadas, dizem que o feminismo é uma desculpa para mostrarmos os seios nas marchas... a vocês que dizem coisas como estas, é com muito pesar e convicção que informo: vocês são pessoas ignorantes, que não tem capacidade de desenvolver empatia, e que, sequer, buscam o mínimo de informação sobre o que é o feminismo. Se o fizessem, saberiam que nossa luta é contra a cultura de estupro, que culmina em casos hediondos como este. Feminismo é indispensável num mundo conservador e patriarcal como o nosso. Se informem, e não desvalorizem nossa luta!

Sigamos juntas, amigas mulheres e feministas. Amo vocês.


 E te amo, Bia. 

quarta-feira, 23 de março de 2016

Reflexões sobre aborto

Ultimamente tenho me visto em situações nas quais sou obrigada a discutir e tentar esclarecer meu posicionamento sobre um tema delicado e nem um pouco fácil: o aborto. Este texto é uma tentativa de apresentar alguns posicionamentos sobre o tema que te façam refletir sobre ele e perceber que, talvez, esse assunto envolva muitas questões que você estava negligenciando (não por maldade, mas por falta de oportunidade mesmo).

Primeiramente, gostaria de fazer uma pergunta bem sincera: Se você se diz “contra o aborto”, você já parou para pensar que, talvez, o posicionamento contrário a este não exista? Em outras palavras: você já parou para pensar que NÃO EXISTE ALGUÉM A FAVOR DO ABORTO?

Acho que esse é um bom ponto de partida para conversar com quem se diz tão enfaticamente contra o aborto e pró-vida. Gente, aborto é algo cruel, algo feio, algo que ninguém planeja. Ninguém diz “ah, acho que vou fazer um aborto porque me sinto bem com isso”. Logo, não precisam tentar nos chocar com imagens de fetos mortos. Isso é, no mínimo, uma estratégia infantil. TODXS SABEMOS QUE ABORTO É UM TROÇO TERRÍVEL.

Ai vocês me dizem: “Mas a feministas se dizem a favor do aborto. Elas querem matar criancinhas. Querem que todas as mulheres façam abortos, mimimi”. Gente, ninguém é a favor do aborto. Somos a favor da LEGALIZAÇÃO DO ABORTO. A legalização criaria regras voltadas para a realização do aborto seguro, ou seja, haveria acompanhamento psicológico para que a mulher decidisse se é realmente isso que ela quer, se estipularia um tempo para fazê-lo (durante as primeiras semanas de gravidez, por exemplo), o aborto seria realizado em hospitais e não em clínicas clandestinas onde as mulheres estão assustadoramente suscetíveis a morte (seja porque o material usado é inadequado, porque o lugar é sujo, ou porque o aborto é realizado por pessoas que não entendem nada do que estão fazendo).

Entendam: enquanto as pessoas se dizem “pró-vida”, mulheres estão MORRENDO ao fazerem aborto clandestino. Por mais #contraaborto vocês sejam, o aborto existe e está sendo negligenciado. Você nunca convencerá uma mulher desesperada por não ter um filho a tê-lo. Ela fará qualquer loucura para interromper aquela gestação, se ela realmente o quiser. Não adianta fugir da realidade. Quem não apóia a legalização do aborto está simplesmente dizendo “foda-se você que engravidou, mesmo que você destrua a sua vida ou a de seu filho. A culpa é sua. Foda-se”.

Inclusive, escutei dia desses que as mulheres que fazem aborto MERECEM morrer porque a culpa de ter engravidado foi delas. Primeiro: NINGUÉM MERECE MORRER, ok? O que vocês andam aprendendo na igreja pra vir com uma afirmação dessas, hein? Segundo: a culpa de engravidar não é só da mulher. Se vocês não sabem, é preciso um homem também, viu? Voltem para a aula de biologia que lá vocês vão entender direitinho.

Mas ai você pode argumentar que “se você é a favor da legalização do aborto, você está dizendo “foda-se a vida do feto”. Vamos lá: Um feto, nas primeiras semanas de gestação, não possui os órgãos formados. Não possui um cérebro formado. Não possui um sistema nervoso central. Não tem consciência. Não se comunica. Não sente dor. Não sente. Um feto é uma VIDA EM POTENCIAL. Um POTENCIAL SER HUMANO. 

Por mais que você seja “a favor” de manter essa POTENCIAL VIDA para que ela se torne uma “vida completa" (o que eu acho ótimo!), é justo você EXIGIR que todos sejam obrigados a pensar como você? E se considerarmos que nem todas as mulheres que engravidam possuem o mesmo apoio e estrutura familiar que você possui? E se considerarmos que existem mulheres que engravidam e que estão em situação de risco social sério, e que não tem a mínima condição de cuidar de uma criança? E se considerarmos que não é tão fácil assim colocar uma criança para adoção e ela ser adotada (infelizmente as pessoas ainda escolhem as crianças que querem adotar. Nem todas são adotadas. Muitas delas acabam caindo na marginalidade, sendo cuidadas por qualquer pessoa ou instituição)?

Desculpa gente, mas acho um egoísmo sem tamanho você exigir que uma mulher leve adiante uma gravidez (que é algo tão sério) indesejada sem conhecer a realidade dela. Acho um egoísmo absurdo você não lhe dar o direito de fazer um aborto seguro. E não me venham com o argumento de que “ah, mas se o aborto for legalizado, todo mundo vai abortar”. NÃO, GENTE... Procura no GOOGLE a realidade de países que já legalizaram o aborto (boa parte deles países de primeiro mundo) e vejam que o índice de mulheres que fazem o aborto caiu, principalmente em função do apoio psicológico que elas recebem.

Acho que quem leu o texto com um pouquinho de atenção entendeu que eu não tô pedindo pra ninguém abortar, neh? Rs. Assim como nenhuma feminista pede. Nossa preocupação está em garantir que mulheres não morram se expondo aos perigos de abortos clandestinos.

Tudo bem se você acha que quem faz aborto vai para o inferno. Deixa a pessoa que optou pelo aborto ir pro inferno então, miga. Não é você quem vai não. Deixa cada um fazer aquilo que acha que é certo para si mesmo, e você vai ver como é bom viver sem julgar as pessoas por suas escolhas pessoais.


Um xêro! Amo vocês :*

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sobre o filme Boi Neon

Sabe quando você assiste a um filme (ou lê um livro) e ele te desperta tantos sentimentos diferentes que você não sabe exatamente o que dizer? Bem, isso aconteceu comigo depois que assisti ao filme Boi Neon. Após assisti-lo, passei aproximadamente 12 horas digerindo tudo o que se passou pela minha cabeça, e então elaborei este texto como um verdadeiro desafio para mim, no sentido de tentar expressar minhas impressões sobre o filme de forma lógica – coisa que o filme não é e não precisa ser.
Li num comentário do Filmow a seguinte afirmação: “Cinema autoral não tem regras - introdução dos personagens, desenvolvimento, clímax, conclusão - cinema autoral é para instigar e desafiar o espectador”, e Boi Neon segue essa premissa, instigando, incomodando, fazendo rir com situações inusitadas, mas cotidianas na vida das pessoas retratadas, e nos inebriando com a simples condição do ser humano inserido no mundo da vaquejada, no agreste pernambucano.
Essa condição desse ser humano está o tempo todo associada à condição do animal – o boi e o cavalo - e é impossível não lembrar de Gilberto Freyre, no livro Nordeste, quando este autor compara a situação do escravo à situação do boi nos engenhos de açúcar de Pernambuco, séculos atrás. Para Freyre, tanto o escravo quanto o boi eram mansos, mas fortes; de passos lentos, mas firmes; capazes de suportar as situações mais adversas. Não seriam assim os vaqueiros retratados no filme, que rodam o Nordeste carregando bois para participarem das vaquejadas?
Ainda para Gilberto Freyre, o cavalo teria mais pontos em comum com seus donos, os senhores de engenho. Isso porque eles, diferentemente dos bois, não suportavam os trancos do trabalho pesado, e precisavam de cuidados especiais para servirem de montaria a seus donos, que detinham o poder sobre outros seres humanos, e que precisavam estar acima destes, como a localização da casa de engenho lhes permitia estar. Em Boi Neon, esse status do cavalo não se perdeu. Ele, quando possuidor das características solicitadas a um cavalo de raça, está entre os homens de poder da região, que compõem o mundo da vaquejada, e que detém prestígio e poder em relação aos vaqueiros.
Só essa análise a partir de Gilberto Freyre já é de tirar o fôlego, mas Boi Neon consegue ir além, e por isso achei esse filme tão inteligente. Ele consegue desconstruir estereótipos relativos a profissões e gênero, mostrando um vaqueiro que ama trabalhar com moda e sonha ser um grande estilista, outro extremamente vaidoso, uma vigilante noturna gestante, uma caminhoneira mulher e mãe. É muito legal ver personagens que saem do script, e que se mostram contraditórios e complexos, como é o ser humano, afinal.
Outro ponto positivo vai para a cena de sexo mais linda que já vi na vida, entre o vaqueiro e a vigilante grávida. Realmente me faltam palavras para descrever aquela cena e vou me limitar a dizer que ela é linda e que também desconstrói estereótipos, afinal, existe uma romantização das gestantes no imaginário das pessoas, uma vez que elas são vistas como seres reduzidos ao “amor materno”, tendo alguns desejos, como os sexuais, desconsiderados. Ver uma mulher grávida como alguém que faz sexo pode incomodar muita gente. Inclusive, ouvi boatos de que algumas pessoas saíram da sala de cinema xingando, e não me surpreende que tenha sido no decorrer dessa cena, afinal o modelo de “mulher grávida que preserva seu corpo de qualquer contato mundano por causa do filho que gera em seu ventre” é muito forte. Os carinhas atrás de mim no cinema riram durante toda a cena... o incômodo pode se manifestar de diferentes formas, não é mesmo?
Além disso, há também o fato desse filme retratar na telinha do cinema uma realidade tão próxima à minha, que vivo no agreste pernambucano, e que estou estudando sua formação social, econômica e cultural na tese de doutorado. É sempre gratificante se sentir familiarizado com a linguagem dos personagens, suas gírias, seus modos de trabalho... Acredito que sempre vale a pena prestigiar obras que retratem nossa realidade e que sejam produzidas na nossa região. É sempre uma oportunidade de aprender através de outros pontos de vista, e de incentivar pessoas que se preocupam em dar visibilidade à nossa realidade.
Corre lá pra assistir *-*

Bjks!