Um olho, uma
bunda, e um ralo. Estes três elementos são os grandes destaques na vida de Lourenço,
um homem incapaz de amar ou de sequer se importar com alguém, e que tem na
realização de suas taras a constituição da sua realidade.
O Cheiro do
Ralo é mais um daqueles filmes brasileiros que tratam as coisas mais trágicas
da condição humana através de situações simples e inusitadas (e com
Selton Mello, pra variar). É necessário quebrar a cabeça pra ver alguma lógica
nessas histórias formadas por um encadeamento inesperado de acontecimentos na(s) vida(s) do(s) personagem(s)... pois bem... desafio aceito!
Lourenço é
um cara que aos olhos do espectador parece, no mínimo, perturbado. Afinal, estamos acompanhando seus passos e pensamentos na telinha. Entretanto, na vida
real ele nos passaria tranquilamente a sensação de alguém normal e seguro de si:
um negociador, dono de um empreendimento, com alguns problemas pessoais... mas
quem não os tem, afinal? Enfim... um cara como outro qualquer.
Seu trabalho
é adquirir quinquilharias e guardá-las na “sala ao lado”. Eis que suas esquisitices
começam a surgir. Ele parece não ter uma história, e vive antes de tudo para
atender seus desejos egoístas: o rompimento de um casamento há muito tempo
planejado e sua saga para ver a bunda de uma garçonete são exemplos de como sua
vida é movida por esses tipos de desejos. Essa ausência de uma história parece
ser compensada pela aquisição de objetos velhos, que possuem uma trajetória, um
passado pra contar (mesmo que essa história seja inventada pelo personagem).
Lourenço
não adquire qualquer objeto... os objetos pelos quais ele se interessa são os
mais absurdos possíveis. Um olho e uma prótese de perna são bons exemplos de
objetos absurdos que ele compra justamente para constituir sua própria história.
No caso desses dois objetos mais especificamente, a história de um pai que ele
nunca teve. Assim, o olho passa a ser o olho do seu pai, o qual o personagem exibe
com orgulho para todos, juntamente com a história fictícia de um pai morto na segunda guerra mundial (história que acaba se tornando muito próxima
da realidade quando Lourenço dá uma grande festa por conhecer alguém que lutou
na guerra com seu pai)... O olho então passa a ser uma espécie de amuleto na
vida de Lourenço, um olho que precisa ver de tudo, inclusive a bunda que o
personagem tanto deseja...
O escritório
de trabalho de Lourenço tem um banheiro cujo ralo está com defeito, exalando um
cheiro desagradável. Algo na personalidade de Lourenço fede, acho que ele inconscientemente
sabe disso, mas a culpa é do ralo, claro, o que ele deixa bem claro a cada cliente que
entra no seu escritório. Segundo o personagem, os problemas da sua vida são
decorrência do mau cheiro daquele ralo, que é uma espécie de “porta do
inferno”, por onde espiam os seres que ali vivem.
A
personalidade doentia do personagem, entretanto, faz da causa dos seus males
sua salvação, como alguém que vende sua alma ao diabo. De repente, o cheiro do
ralo passa a lhe dar poder, e naquele escritório, o seu poder de negar uma
oferta de um cliente junto ao odor fétido do ralo e à sorte que emana do olho, seu
amuleto, fazem de Lourenço um ser poderoso, capaz de humilhar seus clientes sem
a mínima culpa, algo que na verdade, o satisfaz...
O
personagem, portanto, não se culpa por ter uma vida tão mesquinha e execrável...
a culpa ora é do ralo, ora é da bunda da garçonete que o faz comer aquela
comida ruim da lanchonete e ter problemas intestinais, ora é do cliente inconveniente,
ora é da ex-noiva neurótica. Ele é tão incapaz de sentir que a causa de
qualquer coisa está nele mesmo que até seu poder está em coisas exteriores a
si: no seu dinheiro, no olho, ou no mau cheiro do seu banheiro.
O filme
meche com coisas tão malucas que as cenas finais, por mais trágicas que
intencionem ser, são cômicas e me fizeram bolar de rir, caso do seu encontro
com o objeto dos seus sonhos e a sua morte diante da causa de sua queda e de
sua ascensão (o choro diante da bunda, e a morte junto ao ralo)... Certamente
um filme bem tosco... mas vai me dizer que você nunca desejou algo maluco aos
olhos de outra pessoa ou nunca jogou a culpa de todas as suas desgraças em algo
bem distante de você mesmo? ;)
