sexta-feira, 27 de maio de 2016

Na luta contra a cultura do estupro

Estes últimos dois dias não tem sido fáceis para mim, e imagino que para nenhuma outra mulher que tem acompanhado as notícias do estupro coletivo, do qual Beatriz foi vítima. Ver um caso de estupro dessa proporção é algo que desestabiliza, que machuca, que causa tristeza, dor, sofrimento, medo. E se causa em nós, imagina na pessoa que sofreu o estupro...

Ter empatia é algo que te faz chorar ao se colocar no lugar de outra pessoa numa situação dessas, e chorar é o que eu tenho me resumido a fazer nesses últimos dias. Cada notícia sobre o assunto, cada palavra, cada imagem, tem me desestabilizado de uma forma tão forte que não tenho conseguido pensar racionalmente sobre o assunto, e agradeço imensamente às migas que estão tendo forças para dar visibilidade a este caso, para que cada vez mais e mais pessoas entendam como isso é sério, e como existe uma cultura enraizada em nosso meio que sustenta esse tipo de acontecimento.

Essa cultura, não se enganem, está nos discursos “mais inofensivos”, que reproduzem a ideia de que a mulher vale pouco ou nada, que seu corpo não é exclusivamente seu, que o homem tem o direito de possui-lo (afinal, a mulher é um objeto), que o estupro "é algo inevitável, infelizmente..."

Essa cultura está na cantada (cantada é diferente de elogio!) que nós, mulheres, recebemos quase que diariamente na rua, porque o homem se acha no direito de nos tratar como meros objetos que servem unicamente para satisfação das fantasias sexuais dele; está na repreensão à roupa que a mulher usa, porque se ela usar uma roupa muito curta, o homem se acha no direito de tratá-la como ele quiser; está no julgamento feito em relação ao comportamento de uma mulher, porque se a mulher fica com vários numa noite só, se dá pra quem quer, se fica com os gringos que ela quiser, dizem que ela está sendo permissiva, que ela é puta, e que não pode reclamar quando um homem violentá-la; está na divisão “mulher pra casar” e “mulher que não presta”; está na sexualização das mulheres em filmes, revistas, séries; está no fato do homem chamar uma mulher de histérica porque ela viu uma cena de estupro desnecessária numa série e se posicionou contra aquilo (seja porque aquilo é um gatilho para ela, seja porque ela entende que aquilo, de alguma forma, naturaliza o estupro); está no fato de a opinião da mulher ser desvalorizada, afinal, para muitos homens, mulher é emotiva demais, histérica demais etc.; está no fato do homem dizer que a luta da mulher por seus direitos é vitimismo, ou na tentativa de desvalorizar o feminismo (que nada mais é que a busca por equidade entre gêneros); está no SEU silenciamento quando qualquer coisa dessas acontece, afinal, você está sendo CONIVENTE com a ideia de que mulher é objeto e pode ser tratada de qualquer forma.

Cultura do estupro vai muito além do próprio estupro. O ato do estupro é o seu limite. Lutar contra essa cultura significa repensar tudo o que é dito/ pensado/ aceito sobre a mulher. Lutar contra a cultura de estupro é, por exemplo, não aceitar quando seu coleguinha faz aquela piadinha sobre uma mulher do seu convívio, ou quando chamam a mulher de piranha, vagabunda etc., afinal, este tipo de piadinha REFORÇA a ideia de que a mullher não tem valor.

Enfim, não nos silenciemos! Obrigada às manas que tem tido força para evidenciar o absurdo que foi este caso. Obrigada por mostrarem que o estupro não acontece de forma isolada, mas que existem discursos cotidianos que o sustentam. Mas não se esqueçam que todos os dias, muitas mulheres são estupradas no nosso país, e milhares são estupradas no mundo todo! Foi necessário que uma tragédia dessas fosse cometida para que pudéssemos dar maior evidência à cultura do estupro que está no nosso dia a dia. Não nos esqueçamos do caso de Beatriz, estuprada por 30 homens, e não nos esqueçamos de todos os outros estupros que acontecem diariamente!

As feministas estão batendo nessa tecla há muito tempo, enquanto pessoas (geralmente homens) tentam desvalorizar, ridicularizar, menosprezar a luta feminista. Nos chamam de histéricas, de descompensadas, dizem que o feminismo é uma desculpa para mostrarmos os seios nas marchas... a vocês que dizem coisas como estas, é com muito pesar e convicção que informo: vocês são pessoas ignorantes, que não tem capacidade de desenvolver empatia, e que, sequer, buscam o mínimo de informação sobre o que é o feminismo. Se o fizessem, saberiam que nossa luta é contra a cultura de estupro, que culmina em casos hediondos como este. Feminismo é indispensável num mundo conservador e patriarcal como o nosso. Se informem, e não desvalorizem nossa luta!

Sigamos juntas, amigas mulheres e feministas. Amo vocês.


 E te amo, Bia. 

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