Estes últimos dois dias não tem sido fáceis para mim, e
imagino que para nenhuma outra mulher que tem acompanhado as notícias do
estupro coletivo, do qual Beatriz foi vítima. Ver um caso de estupro dessa
proporção é algo que desestabiliza, que machuca, que causa tristeza, dor,
sofrimento, medo. E se causa em nós, imagina na pessoa que sofreu o estupro...
Ter empatia é algo
que te faz chorar ao se colocar no lugar de outra pessoa numa situação dessas,
e chorar é o que eu tenho me resumido a fazer nesses últimos dias. Cada notícia
sobre o assunto, cada palavra, cada imagem, tem me desestabilizado de uma forma
tão forte que não tenho conseguido pensar racionalmente sobre o assunto, e
agradeço imensamente às migas que estão tendo forças para dar visibilidade a
este caso, para que cada vez mais e mais pessoas entendam como isso é sério, e
como existe uma cultura enraizada em nosso meio que sustenta esse tipo de
acontecimento.
Essa cultura, não se enganem, está nos discursos “mais
inofensivos”, que reproduzem a ideia de que a mulher vale pouco ou nada, que
seu corpo não é exclusivamente seu, que o homem tem o direito de possui-lo
(afinal, a mulher é um objeto), que o estupro "é algo inevitável, infelizmente..."
Essa cultura está na cantada (cantada é diferente de
elogio!) que nós, mulheres, recebemos quase que diariamente na rua, porque o
homem se acha no direito de nos tratar como meros objetos que servem unicamente
para satisfação das fantasias sexuais dele; está na repreensão à roupa que a
mulher usa, porque se ela usar uma roupa muito curta, o homem se acha no
direito de tratá-la como ele quiser; está no julgamento feito em relação ao
comportamento de uma mulher, porque se a mulher fica com vários numa noite só,
se dá pra quem quer, se fica com os gringos que ela quiser, dizem que ela está
sendo permissiva, que ela é puta, e que não pode reclamar quando um homem
violentá-la; está na divisão “mulher pra casar” e “mulher que não presta”; está
na sexualização das mulheres em filmes, revistas, séries; está no fato do homem
chamar uma mulher de histérica porque ela viu uma cena de estupro desnecessária
numa série e se posicionou contra aquilo (seja porque aquilo é um gatilho para
ela, seja porque ela entende que aquilo, de alguma forma, naturaliza o estupro); está no fato de a opinião da mulher ser desvalorizada, afinal,
para muitos homens, mulher é emotiva demais, histérica demais etc.; está no
fato do homem dizer que a luta da mulher por seus direitos é vitimismo, ou na
tentativa de desvalorizar o feminismo (que nada mais é que a busca por equidade
entre gêneros); está no SEU silenciamento quando qualquer coisa dessas acontece,
afinal, você está sendo CONIVENTE com a ideia de que mulher é objeto e pode ser
tratada de qualquer forma.
Cultura do estupro vai muito além do próprio estupro. O ato
do estupro é o seu limite. Lutar contra essa cultura significa repensar tudo o
que é dito/ pensado/ aceito sobre a mulher. Lutar contra a cultura de estupro é,
por exemplo, não aceitar quando seu coleguinha faz aquela piadinha sobre uma
mulher do seu convívio, ou quando chamam a mulher de piranha, vagabunda etc.,
afinal, este tipo de piadinha REFORÇA a ideia de que a mullher não tem valor.
Enfim, não nos silenciemos! Obrigada às manas que tem tido
força para evidenciar o absurdo que foi este caso. Obrigada por mostrarem que o estupro não acontece de forma isolada, mas que existem discursos cotidianos que o sustentam. Mas não se esqueçam que todos
os dias, muitas mulheres são estupradas no nosso país, e milhares são
estupradas no mundo todo! Foi necessário que uma tragédia dessas fosse cometida para que pudéssemos dar maior evidência à cultura do estupro que está no nosso
dia a dia. Não nos esqueçamos do caso de Beatriz, estuprada por 30 homens, e
não nos esqueçamos de todos os outros estupros que acontecem diariamente!
As feministas estão batendo nessa tecla há muito tempo,
enquanto pessoas (geralmente homens) tentam desvalorizar, ridicularizar,
menosprezar a luta feminista. Nos chamam de histéricas, de descompensadas,
dizem que o feminismo é uma desculpa para mostrarmos os seios nas marchas... a
vocês que dizem coisas como estas, é com muito pesar e convicção que informo:
vocês são pessoas ignorantes, que não tem capacidade de desenvolver empatia, e
que, sequer, buscam o mínimo de informação sobre o que é o feminismo. Se o fizessem,
saberiam que nossa luta é contra a cultura de estupro, que culmina em casos
hediondos como este. Feminismo é indispensável num mundo conservador e
patriarcal como o nosso. Se informem, e não desvalorizem nossa luta!
Sigamos juntas, amigas mulheres e feministas. Amo vocês.
E te amo, Bia.
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