terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sobre o filme Boi Neon

Sabe quando você assiste a um filme (ou lê um livro) e ele te desperta tantos sentimentos diferentes que você não sabe exatamente o que dizer? Bem, isso aconteceu comigo depois que assisti ao filme Boi Neon. Após assisti-lo, passei aproximadamente 12 horas digerindo tudo o que se passou pela minha cabeça, e então elaborei este texto como um verdadeiro desafio para mim, no sentido de tentar expressar minhas impressões sobre o filme de forma lógica – coisa que o filme não é e não precisa ser.
Li num comentário do Filmow a seguinte afirmação: “Cinema autoral não tem regras - introdução dos personagens, desenvolvimento, clímax, conclusão - cinema autoral é para instigar e desafiar o espectador”, e Boi Neon segue essa premissa, instigando, incomodando, fazendo rir com situações inusitadas, mas cotidianas na vida das pessoas retratadas, e nos inebriando com a simples condição do ser humano inserido no mundo da vaquejada, no agreste pernambucano.
Essa condição desse ser humano está o tempo todo associada à condição do animal – o boi e o cavalo - e é impossível não lembrar de Gilberto Freyre, no livro Nordeste, quando este autor compara a situação do escravo à situação do boi nos engenhos de açúcar de Pernambuco, séculos atrás. Para Freyre, tanto o escravo quanto o boi eram mansos, mas fortes; de passos lentos, mas firmes; capazes de suportar as situações mais adversas. Não seriam assim os vaqueiros retratados no filme, que rodam o Nordeste carregando bois para participarem das vaquejadas?
Ainda para Gilberto Freyre, o cavalo teria mais pontos em comum com seus donos, os senhores de engenho. Isso porque eles, diferentemente dos bois, não suportavam os trancos do trabalho pesado, e precisavam de cuidados especiais para servirem de montaria a seus donos, que detinham o poder sobre outros seres humanos, e que precisavam estar acima destes, como a localização da casa de engenho lhes permitia estar. Em Boi Neon, esse status do cavalo não se perdeu. Ele, quando possuidor das características solicitadas a um cavalo de raça, está entre os homens de poder da região, que compõem o mundo da vaquejada, e que detém prestígio e poder em relação aos vaqueiros.
Só essa análise a partir de Gilberto Freyre já é de tirar o fôlego, mas Boi Neon consegue ir além, e por isso achei esse filme tão inteligente. Ele consegue desconstruir estereótipos relativos a profissões e gênero, mostrando um vaqueiro que ama trabalhar com moda e sonha ser um grande estilista, outro extremamente vaidoso, uma vigilante noturna gestante, uma caminhoneira mulher e mãe. É muito legal ver personagens que saem do script, e que se mostram contraditórios e complexos, como é o ser humano, afinal.
Outro ponto positivo vai para a cena de sexo mais linda que já vi na vida, entre o vaqueiro e a vigilante grávida. Realmente me faltam palavras para descrever aquela cena e vou me limitar a dizer que ela é linda e que também desconstrói estereótipos, afinal, existe uma romantização das gestantes no imaginário das pessoas, uma vez que elas são vistas como seres reduzidos ao “amor materno”, tendo alguns desejos, como os sexuais, desconsiderados. Ver uma mulher grávida como alguém que faz sexo pode incomodar muita gente. Inclusive, ouvi boatos de que algumas pessoas saíram da sala de cinema xingando, e não me surpreende que tenha sido no decorrer dessa cena, afinal o modelo de “mulher grávida que preserva seu corpo de qualquer contato mundano por causa do filho que gera em seu ventre” é muito forte. Os carinhas atrás de mim no cinema riram durante toda a cena... o incômodo pode se manifestar de diferentes formas, não é mesmo?
Além disso, há também o fato desse filme retratar na telinha do cinema uma realidade tão próxima à minha, que vivo no agreste pernambucano, e que estou estudando sua formação social, econômica e cultural na tese de doutorado. É sempre gratificante se sentir familiarizado com a linguagem dos personagens, suas gírias, seus modos de trabalho... Acredito que sempre vale a pena prestigiar obras que retratem nossa realidade e que sejam produzidas na nossa região. É sempre uma oportunidade de aprender através de outros pontos de vista, e de incentivar pessoas que se preocupam em dar visibilidade à nossa realidade.
Corre lá pra assistir *-*

Bjks!

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