Este texto nasceu de um comentário de um colega. Claro que
este comentário foi “sem maldade”, que ele não teve a intenção de machucar
ninguém nem de gerar um grande debate, mas quando entramos no “modo desconstrução”
fica difícil não analisar criticamente tudo o que chega até nós. E acho isso ótimo,
pois nos proporciona exercícios reflexivos constantes, que nos ajudam a sermos
pessoas mais conscientes, a ofender cada vez menos pessoas ao nosso redor, e a
incluir os amiguinhos e as amiguinhas.
Estávamos eu, esse colega e outras pessoas conversando sobre
Sense 8, uma série da Netflix que gosto muito e que indico fortemente a todos e
todas. Comecei a assisti-la por causa do irmão e irmã Wachowski, e somente por
eles, não vou mentir. Os primeiros episódios não me prenderam tanto, pois eu
não estava entendendo nada, sou bem lentinha, rs. Mas quando a minha ficha
caiu, eu fiquei malucaaa!!!
A série é sobre oito pessoas (sensates) que vivem dramas
diferentes em lugares diferentes do planeta, e que se conectam umas com as
outras. Elas tem acesso às habilidades umas das outras, e também podem
conversar entre si, mesmo estando separadas geograficamente. E essa ideia de
pessoas conectadas ao redor do mundo é algo bem fascinante, não é mesmo? É algo
sobre o qual a gente se pega pensando em algum momento de nossas vidas... Tipo:
O que será que uma pessoa do outro planeta está fazendo neste momento em que
estou escrevendo este texto? Será que nosso cérebro teria essa capacidade de se
conectar com outras pessoas? Será que isso será possível um dia? Já tô tremendo
aqui!
A série tem cenas lindas, com diálogos riquíssimos entre os
personagens, e esta é outra coisa que me atraiu. Chorei em tantas cenas que nem
sei mais. A cena em que toca Mad World (com Nomi e Lito) é uma das que mais me
arrancou (e arranca) lágrimas T_T
Nessa série existe um casal composto por uma moça trans
(Nomi) e uma moça lésbica (Amanita, a eterna Martha Jones de Doctor Who <3)
e outro casal homossexual, composto por dois rapazes (Lito e Hernando). Durante
nossa conversa, ao comentarmos sobre as cenas de sexo da série, ficou claro que
meu colega não se incomodou com a cena entre Nomi e Amanita, mas sim com a de
Lito e Hernando. O motivo, segundo ele: O sexo entre as duas moças seria, em
tese, entre duas pessoas heterossexuais (porque a Nomi é uma mulher trans), o
que é mais fácil de aceitar do que o sexo entre dois homens.
Fiquei sem reação na hora (porque sou dessas pessoas que não
consegue dar uma resposta coerente na hora em que fica muito consternada com
algo), mas fiquei pensando sobre isso durante muitos dias. Fiquei pensando em como
é difícil desconstruir a heteronormatividade, dar visibilidade às pessoas trans
e às pessoas lésbicas. Afinal, para esse meu amigo heterossexual (e para
MILHARES de outras pessoas que pensam como ele), uma mulher trans sempre será,
em tese, um homem que mudou de gênero. E dizer isso é negar o gênero enquanto uma
construção muitas vezes dolorosa (como foi para a Nomi, e como é para tantas outras mulheres e homens); é negar a existência da Nomi enquanto
mulher; é negar a orientação sexual da Amanita (que ama outra mulher, logo, não
estava numa relação heterossexual, oras!).
Além disso, o próprio "incômodo" dele em relação ao casal de homens é algo que fala muito sobre seus preconceitos internalizados. Por que sentir "nojo" de uma cena de amor entre duas pessoas? E por que especificamente numa cena de amor entre duas pessoas do mesmo sexo?
Além disso, o próprio "incômodo" dele em relação ao casal de homens é algo que fala muito sobre seus preconceitos internalizados. Por que sentir "nojo" de uma cena de amor entre duas pessoas? E por que especificamente numa cena de amor entre duas pessoas do mesmo sexo?
Como disse no início do texto, acho que o meu colega realmente
não quis machucar ninguém, mas é por reproduzir falas assim, sem pensar, que
acabamos ofendendo, machucando, marginalizando, excluindo. Mas acho que sempre
há uma salvação (sou otimista)! E essa salvação está bastante associada à
empatia. Ninguém nasceu pronto ou sabendo de tudo (a Clara Averbuck escreveu um
texto maravilhoso sobre isso no Lugar de Mulher, dia desses). Sempre podemos
evoluir, se quisermos. E dou meu exemplo, ainda falando sobre Sense 8:
Algo me incomodava no casal Lito e Hernando: O fato de Lito
não assumir que era gay e namorar o Hernando às escondidas. “Que covarde”,
pensava comigo. Mas aí fui conversar com outras pessoas sobre o assunto,
comecei a pensar mais um pouquinho e... EUREKA! Percebi como eu estava sendo
estúpida! Imagina a barra que é, para algumas pessoas, se assumir homossexual num
mundo cheio de preconceito e intolerância, no qual as pessoas te julgam, te
condenam, te consideram incapazes, porque você ama alguém do mesmo
sexo! É só pensar um pouquinho pra perceber que não é tão simples assim. Ou
melhor, é só se colocar no lugar do outro. É só ter empatia. E isso nos faz
crescer um tiquinho :)
Gostaria que meu colega percebesse isso. Mas sou tímida demais pra dizer tudo isso a ele. Vai esse texto mesmo, em forma de desabafo, pra vocês que aturam ler
o que escrevo =P
Bjks!
A cena que eu mais chorei foi quando a Riley chega no aeroporto e o pai dela tá tocando ukulele :')
ResponderExcluirNossa! Essa cena também é destruidora! A que toca What's up nem se fala, neh? Essa série me dxou desidratada, rsrsrsrs!
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