Acho que o segredo de todo bom escritor é escrever sobre aquilo que lhe traz à tona sentimentos fortes e que faz sua cabeça fervilhar de idéias. Não me considero uma boa escritora, mas acredito que as coisas mais agradáveis sobre as quais escrevo se referem a coisas, momentos, situações e pessoas capazes de aflorar em mim e nas pessoas que me lêem sentimentos desse tipo.
Pois bem, o texto de hoje é sobre um filme que assisti ontem, e que recomendo fortemente. Não gosto muito de escrever sobre filmes, assisto muitos e não sou uma boa crítica de cinema, mas esse filme me fez pensar em muita coisa. O cinema brasileiro mais uma vez mostrou sua potencialidade sem precisar fazer uso de peitos nem bundas na tela, e isso merece meu respeito!
O filme é O Palhaço, de direção de Seltton Melo, o segundo longa metragem dele. Conta a história de um grupo circense, do circo Esperança (nome sugestivo) cujo personagem principal é o “Benja”, apelido do Benjamim, o palhaço Pangaré. Ele e o pai administram o circo, mas Benjamim não anda muito bem. Atormentado pela idéia de que faz as pessoas sorrirem, mas não tem quem o faça rir, e pela necessidade de adquirir um ventilador, de tirar identidade e CPF, e de ir à cidade de Passos, no Aldo Auto Peças, encontrar uma moça bonita que conheceu numa das cidades em que o circo se instalou, Benjamim vive um “drama pessoal”. Não consegue dormir, não administra bem os negócios do pai, não sorri.
A simplicidade do filme em apresentar temas tão profundos é a primeira coisa que chama a atenção. São situações simples, que envolvem pessoas simples: Um jantar na casa do prefeito para pessoas que nunca viram tanta comida na vida, uma briga num bar, a busca por um mecânico que consertasse um carro quebrado, uma parada para descansar num prédio caindo aos pedaços, uma mulher que chama o Benja de “engraçado” quando ele se vê com lágrimas nos olhos, triste pela vida que leva... e tudo bem ao estilo brasileiro. Uma “família” circense que se vira como pode, e cada um com seus próprios dramas: casais que vivem a traição, um que não se sente aceito pelo colega, outro que tem sonhos esquisitos, e no meio de tudo isso, uma menina que cresce sendo educada dentro do circo, e que não possui nenhuma fala ao longo do filme, mas uma das participações mais emocionantes.
A procura do Benjamim por algo que dê sentido àquilo que ele faz é, sem dúvida, o mais bonito da história. O personagem taciturno, que não sorri, que parece não ver alegria em ser palhaço, precisa se desligar da sua família, do circo, de tudo o que lhe prende, para enfim resolver seus assuntos pendentes. E ele só resolve esses assuntos e tantos outros, que darão novos rumos a sua vida, quando se vê finalmente sozinho consigo mesmo. Acho que foi isso que me fascinou no filme (além do contexto belíssimo de simplicidade, de cidades de interior, de gente humilde, em que a história se passa a história): a capacidade do ser humano de se superar, de vencer as lutas que trava consigo mesmo, as mais difíceis de todas as lutas!
É que é muito fácil nos deixarmos levar pelas circunstâncias, é muito fácil ouvir alguém mais experiente e seguir o caminho indicado, vencer os percalços já vencidos... Difícil mesmo é reescrever a própria história! É encontrar novos erros, trilhar novos caminhos, e nos encontrarmos nessa passageira, mas difícil, estadia por aqui... E isso é algo que não depende de ninguém mais além de nós mesmos. É um trabalho de autoconhecimento e de muita reflexão que nos permita (ao menos tentar) entender porque estamos onde estamos, e qual nosso papel nesse mundo, para então dizermos: “O gato bebe leite, o rato come queijo, e eu faço o que faço porque cada um faz aquilo que pode e sabe fazer”.
O filme é engraçado a primeira vista, mas se você se envolver de verdade com a história, percebe que aquele humor é, em grande parte, o humor que há por trás das coisas trágicas, e você ri com certa angústia... O casal do meu lado não parava de rir, e eu, ao contrário, não consegui conter as lágrimas... é um filme que causa diferentes reações, a depender do olhar lançado. E isso é que é arte J

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