quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Da inutilidade das coisas

É tanta coisa...
Tanta coisa louca...
Que a gente se esquece...
Esquece daquele prazer ingênuo
Que vem de ler algo simples e se emocionar
De fazer algo inútil
Ou de simplesmente parar e sentir
O mundo e a si mesmo
Como se não houvesse aquela bronca pra resolver
Nem aquelas pessoas chatas pra aturar.
Só você e o mundo...

Li, no blog de uma amiga, um texto delicioso que falava sobre como certas leituras avivam em nós alguns sentimentos gostosos que já vivenciamos em algum momento de nossas vidas. Num momento de reflexão pós-texto, me toquei que nunca mais escrevi nada no meu blog. É que escrever (coisas não acadêmicas) é algo que me traz sentimentos gostosos todo o tempo. E em meio a tantas obrigações a cumprir, deixei um pouco de lado esse meu pequeno-grande prazer que é escrever textos carregados de subjetividade.
O texto dessa minha amiga e uma leitura fantástica que fiz há um tempo atrás do Rubem Alves, e que recomendo fortemente (Variações sobre o prazer: Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette), acabaram me fazendo pensar que em meio a tanta responsabilidade da vida adulta, a gente esquece um pouco de ser inútil. Sim, inútil! Esqueça tudo o que você já ouviu e aprendeu sobre inutilidade ser algo negativo! Estamos acostumados a uma lógica utilitarista e funcionalista, cuja máxima é a de que só é válido aquilo que é útil. Para pra pensar... aquilo que é considerado inútil, muitas vezes, é o que a gente mais gosta de fazer! Ficar de boa (seja sozinho ou com outras pessoas), tomar uma, ler ficção científica, assistir romances bobinhos ou filme-explode-tudo, etc, etc.
E o engraçado é que a gente sempre procura uma utilidade para essas coisas, na tentativa de funcionalizar coisas que existem para nos dar prazer. E só.
Sei que é difícil aceitar essa ideia, neh? De que algumas coisas só servem para nos dar prazer e que não há nada de errado em aproveitá-las. Claro! Ideologias muito bem construidas e disseminadas (por religiões, sistemas econômicos, etc., etc.) nos fizeram crer, ao longo da história da humanidade, que estamos aqui para sermos úteis a algo ou a alguém. O prazer é algo demonizado.  Como diria Rubem Alves:
“A tradição cristã tem medo do prazer. Prazer é artifício do Diabo. Tanto assim que, para agradar a Deus, os fiéis se apressam a oferecer-lhe sofrimentos e renúncias, certos de que é o sofrimento dos homens que lhe causa prazer. Não tenho conhecimento de alguém que, a fim de agradar a Deus, lhe tenha feito promessas de ouvir Mozart ou fazer amor.”
Duvido muito que Deus, aquele fofo, adore nos ver sofrer. Além disso, o homem não é uma máquina!
Não estou dizendo que é errado ser útil. É essencial! Mas a inutilidade também é importante. Vamos parar de polarizar as coisas como boas ou ruins. Como disse uma amiga minha ontem, em conversa, as explicações estão muito mais nos tons de cinzas do que se possa imaginar (falávamos sobre a ideia de desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas isso é outra história).
À propósito, artistas considerados importantes (muitas vezes, depois de mortos) foram considerados inúteis, ociosos e imprestáveis enquanto vivos. Afinal, não se ocupavam das funções ditas “de prestígio”. Suas ocupações eram a arte. E foi essa forma de pensar a arte e a cultura que a deixou a margem por tantos anos, quando, na verdade, ela é algo inquestionavelmente atrelado ao desenvolvimento humano.
Vamos a auto-reflexão:   você constrói suas amizades em função daquilo que é útil pra você? Você só busca relacionamentos úteis? Você só lê ou assiste coisas que vão te fazer uma pessoa melhor, alguém mais inteligente, ou algo do tipo? Acredito (na minha doce – e talvez romântica – visão de mundo) que ninguém é assim. E se você é, meu amigo... você precisa experimentar a vida de verdade J


“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia, de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar flores. Também as latrinas apropriadas ao abandono me religam a Deus. Senhor, eu tenho orgulho de ser imprestável”. (BRECHT)




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